Tem coisas que eu gostaria de compartilhar, mas há coisas que não valem a pena gastar tanto tempo, então optei por contar de uma vez sobre meu lance com Miguel. Foram poucos meses, porém tempo suficiente para que eu ficasse traumatizada para o resto da vida. Mas não serei dramática, esse é um relato que não cabe em mais que quatro ou cinco partes.
Após ter exposto o irmão e dito todas aquelas coisas, Miguel me procurou novamente:
- Como você está? Perguntou, já no portão da minha casa.
- É sempre isso. Você me machuca com um monte de coisas e depois pergunta como eu estou.
- Eu sinto muito.
- Não sinta. Afinal, você só disse a verdade, não é?
- Sim, mas... Eu podia ter sido um pouco mais cuidadoso com as palavras.
- Me machucaria de qualquer jeito.
- Maya, me deixa consertar isso. Vamos dar uma volta, conversar, tomar alguma coisa se você quiser.
- Desculpa Miguel, mas isso não vai me deixar melhor. A gente conversa uma outra hora. - E me preparo para entrar.
- Espera! Pode me dar pelo menos quinze minutos?
- Miguel...
- Por favor!
- Ta bom. Eu só vou pegar minhas chaves.
Passamos muito mais do que só quinze minutos juntos. Andamos pelo bairro e é verdade que, de certa forma, conversar com Miguel me fez esquecer, ainda que por um tempo, das coisas que eu havia descoberto sobre Daniel. Embora tenha sido ele o responsável por me contar tudo, era como se ele também tivesse o poder de transformar isso em algo bom, me fazendo olhar para o que eu podia aprender com isso. Também é verdade que Miguel estava muito bonito e era muito fácil me distrair olhando pra ele dentro daquela jaqueta de couro. Os olhos verdes por trás dos óculos lhe conferiam graça e leveza. Meu Deus, que olhos lindos!
Foi a primeira vez, em muito tempo, que pude olhar Miguel de outra forma. Até então, meu coração estava totalmente ligado ao Daniel, e nada, nem ninguém me importava além dele.
Fomos surpreendidos por uma chuva no fim da noite e tivemos a ideia de nos esconder embaixo do teto de uma fábrica. O espaço era pequeno e tivemos que ficar quase que grudados um no outro para caber ali. Era possível sentir a respiração de Miguel no meu pescoço, de tão perto que estávamos. Ao perceber que eu continuava me molhando, Miguel me abraçou e me puxou para ainda mais perto dele, já não havia espaço entre nós. Era uma sensação estranha, me sentia desconfortável por estar ali. Sentia as mãos dele sobre mim e algo me dizia que aquilo não terminaria bem. Parecia que eu estava prevendo o que ia acontecer...
Miguel encostava seu nariz no meu rosto e, previsivelmente, tentou me beijar. Minha reação foi a pior possível. Empurrei-o, me afastando dele, e sugeri que fôssemos embora, apesar da chuva. Ele se sentiu mal, eu pude notar. Senti que eu não devia ter sido tão dura com ele, mas eu não estava pronta pra isso, então fugir parecia ser a decisão mais prudente no momento.
Fiquei a noite toda me culpando por ter agido daquela forma com Miguel e, na tentativa de me redimir, aceitei ir até sua casa para conversarmos de novo. Sentamos na cozinha e, pra minha surpresa, Miguel parecia bem sobre o assunto:
- Você está linda nesse vestido!
- Obrigada.
- Com sede?
- Não, eu tô bem. Só queria conversar com você sobre ontem.
- Eu tenho uma ideia melhor. Por que a gente não pula essa parte e você para de fugir de mim? - Sugeriu, enquanto tentava se aproximar.
- Eu não tô fugindo de você!
- Não? - Me questionava ao tentar me beijar. - E o que é isso então? - Perguntou, ao me ver esquivando de seu beijo.
- Olha, eu vim me desculpar com você, mas isso não quer dizer que você pode fazer isso...
- Quer dizer que veio se desculpar por não me deixar te beijar, mas não vai me deixar te beijar? É isso?
- Talvez tenha sido um erro eu ter vindo. - Disse, ao me levantar para ir embora.
- Nada disso. Você não vai embora de novo, não vai me deixar sozinho de novo, não vai fazer isso de novo! Não vai fugir de mim! - Disse, firme, enquanto me impedia de ir.
Fiquei assustada com suas palavras, mas mais ainda com o que aconteceu depois.
(*Continua...)

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