Foi desafiador trabalhar com tanta dor de cabeça. Meu único pensamento era chegar logo em casa, ficar no mínimo trinta minutos no banho e me esparramar na minha cama. E foi o que fiz quando cheguei.
Assim que saí do banho, a campainha tocou. Era uma entrega. Uma caixa branca e cintilante, muito bonita, com um laço feito à mão, um tanto quanto discreto. Não havia remetente, não era meu aniversário, nenhuma data importante... Quem, afinal, me mandaria um presente sem nenhum motivo?
Fiquei surpresa ao abrir a caixa e ler o bilhete que dizia: "Quero que use isto hoje a noite!". Claro, era do Vitor.
Na mesma hora, liguei para ele:
- Não quero que fique me mandando presentes! - Disse, brava ao telefone.
- Abra a porta.
Inacreditável. Vitor já estava me esperando na porta.
- O que foi aquilo? - Confrontei-o.
- Eu espero que esteja na moda sair de roupão, porque não temos muito tempo. - Disse ele, brincando com o fato de eu não ter me trocado.
- O que faz aqui tão cedo?
- Vim me certificar de que você vai estar pronta na hora certa. E que, de acordo com meu relógio, significa que tem exatos vinte e cinco minutos.
- Vitor, eu não acho que essa seja uma boa ideia.
- Faz quatro anos que comemoramos meu aniversário juntos. Você não vai tirar isso de mim! - Disse, enquanto se ajeitava no sofá para me esperar.
- Por que está fazendo isso?
- É o meu aniversário. Não acha que tenho o direito de comemorar da maneira que eu quiser?
- Eu sei, mas..
- Vinte minutos. - Me apressou.
- Tudo bem, eu vou me trocar. - Disse, rendida.
Desde o momento em que entramos no carro, até chegarmos em sua casa, Vitor seguiu em silêncio absoluto por todo o caminho. Ele nunca havia ficado tão concentrado dirigindo.
Quando enfim chegamos, Vitor jogou as chaves do carro na mesa, virou-se pra mim e, sem dizer uma só palavra, entrelaçou nossos dedos, me prendendo à janela e desabafou, bravo:
- Por que não está usando o vestido?
- Já disse pra parar de me mandar presentes!
- Acho que você não entendeu. É o meu aniversário, eu faço os pedidos! - Disse, sarcástico. - E isso incluía te ver dentro daquele vestido.
- É você que não entendeu. Você não pode dizer o que eu devo vestir!
- Você é uma menina muito má... - Disse, sorrindo. - Quer dizer que com aqueles caras da festa você gosta de se vestir sexy e pra mim, você se cobre toda?
- Eles são meus amigos e não quero mais que fique insinuando coisas sobre eles! - Disse, firme, enquanto tentava me soltar.
- E eu, Maya? O que eu sou? Eim? - Perguntou, furioso, me apertando com mais força contra a janela. - Será que eu devo fingir que você é minha amiguinha pra ganhar algumas horas com você de sutiã? - Berrava, enquanto arrancava minha blusa.
- Dá pra parar? Me solta, Vitor!
- Você não quis colocar o vestido, você fez de propósito, você não vai ficar com essa roupa! Olha bem pra mim, você não vai! - Dizia Vitor, ao tirar minha roupa.
- Para, Vitor! Para com isso agora! - Pedia, aos prantos.
Vitor só parou ao me deixar apenas de lingerie. Ele se afastava e me olhava dos pés à cabeça, enquanto eu, com muita vergonha, tentava proteger e cobrir o meu corpo, quase me encolhendo em mim mesma.
- Agora dá pra gente começar a conversar. - Disse ele.
- Por que está fazendo isso? Devolve a minha roupa!
- Tá legal, para de chorar! Não precisa disso. Vem cá, me dá um beijo.
- Me solta, Vitor!
Eu recusava seus beijos a todo tempo, estava disposta a nunca mais permitir que ele me tratasse como da última vez em que estivemos juntos.
Vitor, apesar da minha recusa, me beijava com muita fúria enquanto tentava me arrastar para o sofá. Me jogou com muita força no estofado e veio pra cima de mim como um verdadeiro animal.
- Eu sabia que você iria fazer isso! Todo esse papel de ofendido por causa do seu aniversário foi uma desculpa pra me trazer pra cá e fazer tudo de novo! Eu não quero mais continuar com isso, me deixa em paz! - Berrei, desferindo-lhe tapas para que ele me deixasse levantar.
- Maya, se acalma! Dizia Vitor, tentando controlar meus movimentos.
- Eu não vou me acalmar, quero que me solte e me deixe ir embora. Agora! - Gritava.
- Para de fazer força comigo! Maya, para!
- Me deixa ir embora!
- Você não vai me deixar na mão de novo, não dessa vez!
Eu fazia uma força enorme pra tentar tirar Vitor de cima de mim. Minhas unhas o arranhavam até ele me segurar pelos pulsos:
- Já disse pra não fazer força comigo, porra! - Gritou, ao mesmo tempo que me deu um tapa no rosto.
Neste momento, meu corpo todo reagia a isso. Eu ainda não consegui, até hoje, descrever o que senti quando Vitor fez aquilo. Eu me tremia por inteira, ele nunca havia sido tão violento como dessa vez. Fiquei paralisada.
Vitor, ao perceber o que fez, se levantou e, com as mãos sobre a cabeça se questionava:
- Meu Deus, o que eu acabei de fazer? - Se aproximava de mim e não conseguia me tocar sem se odiar. - Maya, eu não quis fazer isso, eu... Eu sinto muito. Maya, eu não consigo me controlar quando tô com você. Me perdoa, Maya, pelo amor de Deus. - Implorava. - A gente poderia ter evitado isso se você tivesse colocado o vestido que mandei, isso nunca teria acontecido. Maya, por favor, fala alguma coisa! Maya! - Gritava, enquanto tentava me tocar.
- Não toque em mim de novo. Nunca mais, entendeu? - E me levantei.
- Maya, espera!
- Eu quero minhas roupas.
- Maya, por favor, me escuta. Eu não sei o que deu em mim, eu preciso de você. Maya, por favor, me perdoa.
- Você é um sádico, doente, precisa se tratar! Eu não vou deixar você me tratar como quiser! - Gritava, ao pegar minhas roupas no chão.
- Maya, eu não quis fazer isso. Eu juro. Maya, por favor, me escuta! Eu não sei o que aconteceu comigo, eu perdi o controle quando você me machucou, eu me senti horrível, um monstro. Eu não sou isso, Maya! Maya, eu amo você!
- Você é louco!
Vitor chorava muito, de uma forma que nunca havia visto. Se ajoelhou diante de mim e dizia, com a voz embargada:
- Eu não quero perder você. Você é a minha vida e eu faria qualquer coisa pra você me perdoar.
- Para com isso. Levanta do chão! - Repreendi-o.
- Me perdoa, meu amor. Eu deveria cuidar de você e não te machucar.
Depois de muito choro, achei que seria pior continuar a conversa. Vitor não me deixava ir embora sem fazer um escândalo todas as vezes que me levantava em direção à porta.
Esperei ele se acalmar para então ir embora, mas acabamos cochilando ali mesmo, no sofá.
*(Continua)

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