Alguns meses após a ida de Daniel, um cara novo começou a frequentar a casa de dona Laura, sua mãe. Fui até lá para vê-la e saber como andavam as coisas. O cara novo me atendeu:
- Se está procurando minha mãe, ela saiu. - Disse ele, no portão, enquanto assoprava a fumaça do cigarro para o alto.
- Oi! Vim saber como ela está. Quando ela volta? - Perguntei.
- Ela está bem abalada, mas vai ficar bem. Eu vou estar com ela. Aliás, não sei porque todos estão tão chocados com a prisão do Daniel. Ele procurou isso, sabia muito bem dos riscos que corria.
- Desculpe, mas... Quem é você?
- Miguel. A gente ainda não se conhece. Eu me mudei faz pouco tempo - Se apresentou, enquanto esticava a mão para me cumprimentar. - E você, quem é?
- Maya.
- Era amiga do Daniel?
- Sim, eu sou amiga do Daniel. - Corrigi, sem dar detalhes.
- Sabe que ele não volta tão cedo, né?
- Eu volto mais tarde pra falar com a sua mãe. - Disse a ele, desconversando.
- Tá legal, a gente se fala então.
Eu não voltei naquele dia à casa de Laura, achei o clima pesado e não gostei nem um pouco daquele cara que me atendeu. Como alguém pode ser tão insensível a isso? Daniel tinha seus problemas pessoais, mas ainda assim era uma pessoa querida pela maioria das pessoas por ser sempre gentil, educado e prestativo com todos.
No dia seguinte, quase que como uma praga, lá estava Miguel na mesma padaria que costumo ir pelas manhãs:
- Bom dia, Maya! - Me cumprimentou.
- Ah, oi! - Respondo surpresa.
- Por que não voltou ontem?
- Não deu tempo. - Menti. - Mas vou falar com ela hoje. - Menti, de novo.
- Ela está em casa agora. Vamos comigo.
Sem ter para onde correr, acabei cedendo e indo com ele ver Laura. Não fiquei muito tempo, já que o ambiente não era dos melhores. Miguel sabia, com maestria, ser uma pessoa desagradável.
Por pior que fossem as coisas, ainda podia me surpreender. Miguel passou a morar com a Laura e eu agora tinha um vizinho pra lá de chato, e que tornava minhas visitas à Laura cada vez mais inviáveis.
Miguel era recém-separado, mas nunca estava sozinho. Era comum vê-lo sempre trazendo uma mulher diferente pra casa. Eu sempre tive uma péssima impressão dele, porque apesar de, a todo tempo, estar com alguém, sempre encontrava um jeito de tentar flertar comigo. Eu nunca correspondi. Mas as coisas começaram a piorar quando já fazia cerca de cinco anos desde que ele se mudou pra casa da mãe. Suas investidas passaram a ficar ainda mais descaradas.
Apesar do desconforto de quase sempre esbarrar com ele, eu nunca deixei de visitar Laura, então era comum que eu frequentasse sua casa. Ficamos muito unidas depois que o Daniel foi embora e isso nos ajudou muito durante esse tempo.
Em uma dessas visitas, Laura foi à farmácia e me deixou sozinha com o Miguel. Foi a oportunidade perfeita pra ele atacar:
- Por que a gente não aproveita que a casa é só nossa pra se divertir um pouco? - Propôs Miguel, ao me abraçar enquanto eu preparava a mesa do café para a Laura.
- O que está fazendo, Miguel? - Repreendo-o, me afastando.
- Achei que quisesse o mesmo que eu.
- Não, eu não quero.
- Não é o que parece... - Sugere.
- O que tá querendo dizer? - Confronto.
- Você tá sempre aqui em casa e... a gente conversa bastante...
- Acha que estou aqui por sua causa?
- Ah, qual é... Quer que eu acredite que vem aqui toda semana pra ver minha mãe?
- Eu não quero que você acredite em nada. Quer saber? Eu acho melhor eu ir embora.
- Não Maya, espera. Eu não devia ter feito isso, me desculpa. Por favor, fica.
- Não sei se é uma boa ideia.
- Eu vou dar uma volta e deixar vocês duas...
- Isso não é necessário, Miguel.
- Não quero que fique desconfortável comigo.
- Tá tudo bem.
- Tem certeza?
- Sim, eu tenho.
- Vem cá. - Disse, sorrindo, enquanto me abraçava.
(Continua...)

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