Pular para o conteúdo principal

Pedra, papel, tesoura - Parte 9: "(DES)ENCONTROS"

 


- Parece que a gente sempre precisa de uma festa pra se encontrar. - Disse Daniel, alguns meses passados daquele incidente com sua ex (agora atual) namorada.

Eu não mencionei, mas desde que soubemos da gravidez de Vanessa, as coisas mudaram drasticamente entre nós. O fato de sermos amigos de longa data não era suficiente para me fazer sentir segura sobre estar perto dele nessas circunstâncias, ainda mais depois do que rolou entre a gente.

Sempre foi óbvio que as coisas não teriam a mínima chance de funcionar. Somos dois estranhos, vivemos em mundos absolutamente distintos. Gosto de pensar que esse filho foi uma benção para nos poupar de tentar fazer algo nitidamente improvável.

- Isso quer dizer que agora só vou te ver no natal? - Brinco.

- Espero estar aqui até lá. - Disse ele, na tentativa de parecer engraçado, mas exalando tristeza no olhar.

- Eu também espero. 

- Como estão as coisas? - Pergunta.

- Eu estou viva. Isso basta.

- Usando minha fala, é? - Diz, aos risos.

- Você estava certo sobre aproveitar cada momento. Quero fazer disso minha filosofia de vida. 

- É o que fará quando a festa terminar? 

- É o que estou fazendo neste exato momento. - E me retiro.

Estávamos no aniversário de uma colega em comum. Algo familiar, já que ela, assim como a maioria dos jovens da nossa idade, já tinha filhos. Então, se quiséssemos fazer algo mais adulto, não seria na frente das crianças.

- Você vem, Maya? - Pergunta Diogo, me oferecendo carona. 

- Vou, mas onde está a Bianca?

- Ela já foi.

- Então vamos. 

Me levanto para ir embora e Daniel me questiona:

- Eu poderia te deixar em casa. Por que não me falou? 

- Obrigada Daniel, mas eu não vou pra casa.

- Ah, já entendi tudo.

- Entendeu o que?

- Nada, você vai sair. É isso. 

- Desculpe. Eu até chamaria você pra ir com a gente, mas é uma festa pra solteiros... - Digo, surrurando divertida pra ele. - A gente se fala! 

Depois da festa, Daniel estava me esperando no portão quando cheguei em casa:

- Chegou tarde, mocinha... - Brinca.

- Que susto, Daniel! O que tá fazendo na rua uma hora dessas? 

- Vim confirmar se a minha menina chegou em segurança. 

- Eu tô muito bem, pode dormir sossegado. - Me rendo à brincadeira.

- Sabe que não pode me ignorar pra sempre, né?

- Dani, eu não quero confusões com a Vanessa. E você vai ser pai de novo, tem coisas pra pensar agora...

Daniel não me deixa terminar a frase e me abraça forte: 

- Eu não sinto nada por ela, só estou acompanhando a gravidez enquanto posso estar aqui. Mas nós não estamos mais juntos, eu te juro. 

- Isso não faz nenhum sentido pra mim, mas de qualquer forma, você precisa cuidar disso. E não serei eu que vou atrapalhar. 

- Maya, faz amor comigo.

- Como é? Está louco? 

- Desde aquele dia, que quase aconteceu, eu pensei que...

- Que não gostaria de ir embora sem antes completar o que começou, não é? - Irônica, o questiono.

- Não, não, por favor. Não é isso! É que... eu não quero que outra pessoa faça isso com você. 

- É um pensamento muito egoísta, você não acha? Ainda mais vindo de alguém cuja namorada está grávida. Você devia se envergonhar de me pedir isso.

- Eu vou acabar com isso, o mais rápido que eu conseguir. Mas me promete, por favor, me promete. Promete que sua primeira vez será comigo. 

- Daniel, vai embora por favor. Eu achei que você tinha mudado, mas está claramente chapado. 

- Você acha que eu preciso usar alguma coisa pra dizer isso? Maya, é o que eu mais quero! 

- Chega, Daniel! - E entro.


(Continua...)


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ginger - Parte 4: "Menina má"

  Foi desafiador trabalhar com tanta dor de cabeça. Meu único pensamento era chegar logo em casa, ficar no mínimo trinta minutos no banho e me esparramar na minha cama. E foi o que fiz quando cheguei.  Assim que saí do banho, a campainha tocou. Era uma entrega. Uma caixa branca e cintilante, muito bonita, com um laço feito à mão, um tanto quanto discreto. Não havia remetente, não era meu aniversário, nenhuma data importante... Quem, afinal, me mandaria um presente sem nenhum motivo?  Fiquei surpresa ao abrir a caixa e ler o bilhete que dizia: "Quero que use isto hoje a noite!". Claro, era do Vitor.  Na mesma hora, liguei para ele: - Não quero que fique me mandando presentes! - Disse, brava ao telefone. - Abra a porta.  Inacreditável. Vitor já estava me esperando na porta.  - O que foi aquilo? - Confrontei-o. - Eu espero que esteja na moda sair de roupão, porque não temos muito tempo. - Disse ele, brincando com o fato de eu não ter me trocado. - O que faz aq...

Pedra, papel, tesoura - MIGUEL - Parte 5: "Na coleira"

Miguel parecia ter acumulado uma vontade incontrolável de fazer o que estava prestes a fazer. Em um impulso aparentemente motivado, se aproximou de mim, segurou minhas pernas e me colocou em cima da mesa. Eu resistia, mas ele me beijava intenso e não me dava sequer um segundo para pedir que ele parasse.  Eu queria poder dizer que estava bem e que estava gostando de estar com ele, mas ainda estava machucada com o que soube sobre Daniel, meu pensamento estava longe e eu não conseguia estar totalmente presente naquele momento. A verdade é que eu só pensava no quanto gostaria de estar vivendo aquilo com ele. Miguel era incansável e parecia não desistir de tentar me conquistar. E eu confesso que não fazia esforço algum para isso dar certo. Com o tempo, ele notou minha frieza e isso era motivo o bastante para que ele brigasse diariamente comigo. Eu passava muito tempo com os meus amigos antes de termos algo, e ele estava disposto a tirar isso de mim. Frases como: "Eu não vou deixar uma ...

Carta 4 - "Atuando por um final feliz"

As pessoas estão acostumadas a me chamar de fria, mas elas não viram os trechos que escrevi tentando fazer uma música pra você. Elas não me viram enquanto eu repetia o DVD do John Mayer, feliz por na noite passada você ter acertado ao colocar "Free Fallin'" pra tocar no seu celular sem imaginar que é a música que mais combina com você. Elas também não viram sua sessão de fotos no quarto, aquela que pedi mil vezes pra você topar fazer, só porque eu descobri uma pose em que você ficava absurdamente bonito mostrando suas tatuagens. Uma pessoa fria não seria tão observadora... E sabe o que mais? Elas não viram o quanto de mim quis chorar quando você disse que logo iria embora. Eu sei que estou acostumada a ficar sem você, e que Deus continua sendo bom em nos permitir viver o que queríamos, e eu tento, eu juro que tento imaginar uma vida em que tudo dá certo pra nós, como você sempre diz. "A gente vai poder se ver mais vezes, eu não vou deixar de vir aqui, acredita em mim...