Já tem um tempo que tenho reparado na forma com a qual recebo sinais de que as coisas estão para acontecer na minha vida. É incrível pensar que um dia antes da notícia que mudaria meu final de semana eu me sentiria ligada à você de alguma forma. E o mais incrível de tudo: você não estava lá naquela noite, naquele bar, naquela cadeira, na mesa 19. Bom, talvez não materialmente.
Você me disse várias vezes que acreditava que as pessoas são predestinadas a se encontrarem em algum momento da vida, ainda que esse momento seja breve. E eu custava a concordar que nos conhecemos por qualquer outro motivo que não fosse sua insistência em me levar pra jantar. Mas, por todas as coisas que aconteceram com a gente, abri meu coração para refletir sobre tudo o que me disse.
Naquela noite, no bar, aquele cara usava uma blusa branca como a sua, ele carregava sua expressão no olhar, tinha um sorriso muito parecido com o seu. Eu me senti confortável com ele. E no momento em que ele se levantou, pude notar que ele era bem alto, como você. E isso, e todas as demais coisas que me lembravam você, me fizeram pensar em toda a nossa história.
Eu ria sozinha enquanto lembrava do dia que você tentou ser amigo da minha cachorrinha, um acalento gostoso veio ao coração quando lembrei de todas as palavras doces que vinham de você ao me ver com medo. Lembrei daquele jantar, no dia dos namorados, à luz de vela e do quanto você foi e era cavalheiro. Lembrei do pedido de namoro no carro, sem mais nem menos, apenas porque pra você era fácil fazer isso. Lembrei daquela viagem, quando você se declarou e eu ouvi, de uma maneira mais profunda, tudo o que sentia por mim.
Lembrei de todos os planos que você fazia, perguntando sobre como seria quando a gente se casasse. Lembrei daquela noite, na chuva, na varanda da sua casa e você fazendo contas mentalmente de quanto tempo precisaria pra gente passar a lua de mel em Paris, e dizendo que eu só veria a Torre Eiffel da janela do quarto, porque estaríamos ocupados demais pra isso.
Faz um tempo, mas eu lembro de você sendo a pessoa mais gentil que eu conheci na vida, me buscando no portão de casa, segurando minha mão pra eu não correr o risco de descer e tropeçar com o salto, abrindo a porta do carro e colocando o cinto em mim.
Lembro de você e minha mãe tendo longas conversas no portão enquanto me esperava terminar a maquiagem, ao mesmo tempo que experimentava e opinava sobre meu chocolate vegano.
E quando você teve problemas com o carro, quando me fez pegar em um volante sem eu saber dirigir. Você estava tão nervoso que fumou quase um maço e me pedia desculpas a cada novo cigarro. Eu odiava te ver fazendo isso e você sempre dizia que queria melhorar pra mim. A gente veio embora com seu amigo, e você querendo segurar minha mão como quem diz: "Obrigado por me apoiar nesses momentos". Esse também foi um dia marcante pra mim.
E aquela vez, na nossa lanchonete preferida? Com nosso sanduíche de rúcula e você dispensando a cebola porque sabia que eu não ia te beijar se fizesse isso. Deixo escapar um riso frouxo quando me lembro da gente procurando um lugar em paz pra sentar e conversar e indo parar na festinha de uma igreja cuja religião não era nem a minha, nem a sua.
Mas o dia que você mais me deixou feliz foi quando me viu chorando e resgatou aquele cachorrinho que havia escorregado no chafariz. Eu fiquei tão apaixonada por te ver com aquele cachorrinho sujo no colo que te enchi de beijos de tanta gratidão.
Eu nunca vou esquecer daquelas noites no restaurante, de você descendo rápido do carro pra dar a volta a tempo de abrir a porta pra eu descer, puxando a cadeira, e você me contando sobre todas as coisas profundas da sua vida. Nossas melhores conversas foram lá.
E as músicas que você sempre me mandava, na intenção de me dizer várias coisas nas entrelinhas daquelas letras?
Eu ficaria horas relembrando nossos momentos...
Hoje, eu só sinto por não termos tido tempo pra fazer aquela viagem pro campo de lavandas, ou o passeio pra conhecer o evento da colônia italiana. Nós vivemos muita coisa juntos e podíamos muito mais.
Estar com você era como viver aquele romance turco do qual te falei. Eu dizia que você se parecia com o Keremcem e você retrucava sorrindo, dizendo que era muito mais bonito que ele. Você era tão doce, romântico e elegante como aquele personagem. E ambos tinham vozes lindas e imponentes. Por isso é que eu sempre pedia pra você cantar pra mim e você, de brinde, ainda imitava um radialista oferecendo a música pra ouvinte de todos os programas.
Por um tempo, eu apaguei da minha mente todas as brigas que tivemos. Eu era imatura e não entendia como alguém podia gostar e se dedicar tanto a mim como você fez. Você me amou quando eu ainda era uma menina, teve paciência e nunca desistiu de nós, e eu me tornei melhor depois de você ter passado por mim.
Infelizmente, eu preservo a estranha mania de só falar pras pessoas como eu me sinto em relação a elas depois que elas vão embora. E hoje, eu gostaria de poder dizer o quanto sou grata por ter conhecido o homem lindo que você era, por dentro e por fora.
O cara da mesa 19, de muitas formas, me fez lembrar de você. Talvez fosse um sinal divino pra eu finalmente aceitar conversar sem as formalidades do "oi, como está?". Talvez fosse uma forma de Deus sussurrar no meu ouvido que ainda podíamos ser melhores e eu podia ser menos fria e considerar suas desculpas também na prática.
Fato é que você marcou minha vida de uma forma única e especial. E nada jamais vai apagar isso de nós. Eu ainda vou me lembrar de você quando em algum lugar tocar Pearl Jam, quando alguém quiser discutir sobre a teoria da Terra plana, ou quando estiver parada em algum canal de novela turca. E quando alguém tentar criar um apelido pra mim, vou me lembrar que os seus eram os melhores e mais criativos.
Espero que você esteja em um lindo campo de lavandas, como aquele que passaríamos suas férias. E sei que se estivesse por aqui, diria que eu deveria ter dito antes todas essas coisas e talvez a história entre nós pudesse ter sido ainda melhor.
Espero que seus filhos perpetuem seus ensinamentos e sua inteligência ímpar. Que eles tenham seu bom gosto pra música e pra roupas. Espero te ver novamente, em outras vidas, ou naquele bar, se resolver visitar o cara da mesa 19.
(Em memória de F.N.)

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