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O Cowboy Interiorano - Parte 3: "Remorso ou Ressaca?"


Ora ora, se não é o senhor Ressaca... - Debochava enquanto o via descer da caminhonete na porta da minha casa. - O que faz aqui?

- Tem um minuto?

- Não, não pra você. Ahh! E eu não posso te chamar para entrar, porque não quero que veja o Alex escondido no meu guarda-roupas. - Ironizava.

- Olha, eu sei que está com raiva...

- Com raiva? - Interrompi. - Eu estou furiosa, decepcionada.

- Eu sei, eu sei, tem todos os motivos pra isso. Mas por favor, me deixa falar com você.

- Não temos nada pra conversar. Esteja feliz por eu não ter chamado a polícia. Agora vai embora!

- Maya, espera! - Insistiu.

- Um minuto, e só. - Concordei.

- Eu fui um babaca com você ontem, não sei o que me deu. Eu bebi demais e acabei me descontrolando. Eu sinto muito.

- Seu problema não é com a bebida, você tem problemas de caráter, e eu não quero mais te ver.

- Você está se ouvindo? Está dizendo que não tenho caráter, é isso mesmo? 

- Foi o que eu disse.

- Não sabe o que está dizendo. 

- E você, sabia o que estava dizendo quando me chamou de vadia? 

- Eu não... Eu sinto muito, não quis te ofender dessa forma. Eu só... não suporto você se dando tão bem com o Alex, eu me sinto rejeitado. É assim que me sinto.

- Não pode agir assim. Você não tem esse direito!

- Maya, eu admito, sinto ciúmes de você. Não pode me culpar por isso.

- Você é patético! Nós não temos nada pra que você tenha ciúmes de mim.

Percebi o quão dura fui com ele, quando Henrique desistiu da discussão e apenas desabafou:

- Eu não sei quanto à você, mas eu realmente gosto do que temos, Maya. - Disse, subindo na caminhonete e indo embora sem se despedir.

Triste por ter pegado pesado mais cedo, fui até o hotel à noite procurar Henrique. Acho que no fim das contas, eu estava prestes a fazer exatamente o que ele queria: me sentir mal por ter sido verdadeira com meus sentimentos sobre ele. 

Ele saiu do quarto para me atender:

- Achei que fosse mentira do porteiro.

- Achei que não quisesse me atender.

- Eu não faria isso. - Disse ele, docemente.

- Não vai me convidar para entrar? - Pergunto.

- Você teve péssimos momentos no meu quarto ontem, não quero que lembre de mim como um monstro. Tenho uma ideia melhor. 

Henrique entrou no quarto novamente e saiu trazendo uma coberta e lanternas.

- Onde vai com isso? - Perguntei.

- Você está com fome? - Perguntou, desconversando.

- Não, não estou. 

- Tenho algo que você gosta.

- Ah, é?

- Sim, e tenho certeza de que você não vai dizer não para balas de gelatina, as suas preferidas.

- De urso? - Perguntei animada.

- De urso. - Sorrindo, respondeu.

À essa altura, as coisas já estavam mais leves entre nós e eu já quase não me lembrava de como me senti na noite passada. Tenho para mim que, quando sóbrio, Henrique agia conforme quem ele era de verdade, e isso me dava esperança de que ele não era uma pessoa ruim, e sim um cara normal com problemas  com o álcool. 

Passamos a noite toda conversando em um banco de madeira no jardim do hotel, e pude entender Henrique um pouco melhor. Ele perdeu o pai recentemente e depois disso, começou a se envolver ainda mais com vícios e a bebida era só uma parte de tudo isso. Era diferente estar com o Henrique sóbrio. Eu gostava disso.

Em certo momento da noite, decidi que era hora de dar um chance a ele, e foi então que o beijei. 

- Não está com medo de mim? - Perguntou ele, se certificando.

- Não, eu não estou. - Disse, acalmando-o.

Ao final da noite, Henrique soltou:

- Posso considerar isso um recomeço? 

- Uma despedida, talvez. Eu sei que logo você vai embora.

- Não precisamos ter tanta pressa pra isso. Eu ainda estou aqui. 

Henrique me encostou em seu ombro até que eu pegasse no sono. E ali ficamos até a madrugada, quando pedi que ele me levasse em casa.

- Você foi incrível hoje. - Disse, antes de entrar.

- Maya, eu não sei dizer o quanto estou arrependido por ter te tratado mal. Você é uma menina tão doce e linda, merecia algo melhor de mim. Eu ainda quero poder consertar isso quando voltar. E também não quero que isso seja uma despedida.

- Não é. 

- Até logo, Maya. - Disse Henrique me beijando intensamente antes de ir embora.

Depois desse dia, ele partiu para outra cidade para levar o maquinário criado por seu pai para outros estados do país e também do continente. E ainda não sei o quão logo será esse "até".

...

(Continua?) 

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