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Pedra, papel, tesoura - Parte 6: "Me deixa te ensinar"

Estou um tanto sumida daqui, reconheço. É que nos últimos dias aconteceram tantas coisas, e eu tenho muito pra contar que nem sei por onde começo.

A minha vida está tão surpreendente, que sequer consigo acompanhar o ritmo dos acontecimentos. Se eu tentar resumir, vou acabar dando spoiler e estragar tudo.

Mas vamos por partes... Eu estava contando sobre como as coisas aconteceram entre mim e o Daniel. Nós fomos a um lugar com um céu lindo, e ele me beijou. Eu pensei em contar exatamente o que aconteceu naquela noite, eu poderia fazer isso muito bem, lembro de cada detalhe...

Daniel estava fragilizado e vivendo um momento difícil de sua vida. Pensar na possibilidade de ficar longe dos filhos o machucava muito. Dei a ele, como boa amiga que sou, o apoio que me cabia, e pensei, inclusive, que ele pudesse estar confundindo as coisas quando me beijou, mas o que veio depois me surpreendeu...

- Por favor, não fume perto de mim! - Pedi, com medo, achando que isso pudesse ser o que ele mais quisesse fazer.

- Não farei isso. Talvez seja bom pra mim trocar de vício. - Disse Daniel, me surpreendendo com um beijo.

- O que tá fazendo? - Perguntei.

- O que sempre quis fazer. 

- Sempre?

- Sim, sempre. A vida toda eu te olhei com outros olhos, desde que te conheço.

- Eu tinha oito anos quando começamos a ser amigos! - Disse, incrédula.

- Sim, eu sei. E é disso que estou falando. Eu te conheço desde que se mudaram pra cá, você tinha meses, e eu já era um pirralho. Depois de crescida, você ainda era só uma garotinha, mas eu já te olhava. Não podíamos fazer muita coisa.

- Você só pode estar louco! - Repreendo-o.

- Maya, eu nunca te fiz ou te faria mal. E também nunca deixei que fizessem mal a você. Eu era jovem, imaturo, mas você era a minha menina, e eu faria qualquer coisa pra te proteger. Você sabe disso, não sabe?

- Sim. - Respondi, mudando o tom, rendida.

- Você não é mais uma criança, Maya. Está crescida e com certeza já aprendeu muitas coisas. Por que não me mostra o que sabe? - Intimidou, enquanto me encostava no carro.

- Daniel, não! Isso não tá certo.

- Por que não? Eu quero muito isso...

- Você tem família e precisa consertar as coisas.

- Não existe mais nada que eu possa fazer, e é com você que eu quero estar. Eu já rompi tudo com ela, já disse.

- Você está chateado e eu entendo, mas não pode agir desse jeito, sem pensar.

- Eu já pensei, e já decidi.

- Está se preciptando. - Disse, me afastando.

- Maya! - Gritou, enquanto me segurava pelos pulsos. - Eu não quero que você use isso como desculpa pra se esquivar de mim.

- Não é uma desculpa, eu só...

- Está com medo. - Completou.

- Eu não estou com medo...

- Então o que é?

- Daniel, nós somos amigos!

- E isso devia te fazer confiar com mim.

- Eu confio, mas não sei se a gente deveria...

Daniel não me deixou concluir a frase, e tornou a me beijar.

Parte de mim via aquilo como algo errado, porque embora ele estivesse "oficialmente" solteiro, não me sentia bem com a situação. Era muito estranho estarmos assim depois de tantos anos. 

Daniel me beijava intenso, como se aquele fosse o último dia de nossas vidas. Eu sabia que não era, mas podia muito bem ser o último dia dele livre. Pensar sobre isso deixava tudo pior. Talvez isso explique o motivo de tanta insistência de sua parte para que fôssemos além. 

Sentia os toques de seus dedos por baixo da minha camisa, percorrendo minhas costas, na tentativa de desabotoar meu sutiã, seus lábios claramente marcando meu pescoço, descendo para meus seios e, pra mim, estava claro o que ele queria...

A partir daí, as coisas começaram a ficar (in)tensas entre nós. Daniel insistia o tempo todo para que tivéssemos alguma intimidade. E dizia isso com todas as letras.

Eu não sabia se podia contar a ele sobre minha situação, mas eu havia voltado a confiar nele, pensei que compartilhar meu trauma pessoal com alguém pudesse me fazer sentir melhor:

- Daniel, por favor, pare! 

- Quero fazer amor com você. Aqui, agora!

Amor. Foi a única coisa na qual consegui prestar atenção. Eu conheci algumas pessoas durante minha vida, mas ninguém nunca me propôs isso de uma maneira tão gentil como Daniel. Sim, o meu amigo bad boy querendo fazer "amor". Foi surpreendente ouvir isso dele.

Mas apesar da gentileza com que ele propunha as coisas, eu sabia que aquilo não iria acontecer. Não naquele momento e não com ele.

Eu passei por coisas horríveis com meu último namorado, Felipe. E contei a Daniel sobre isso. Contei que Felipe era um escroto e que tentou  de muitas formas fazer com que eu tivesse minha primeira vez com ele e que, em uma delas, forçou muito para que as coisas acontecessem entre nós. Ele só não foi mais longe porque foi impedido pelo primo, dono do quarto onde ele me forçou a deixá-lo fazer o que ele queria. Eu não gosto nem de pensar no que mais teria acontecido se o Iago não tivesse chegado a tempo. Algo me faz pensar que Deus me guardou naquela noite. Só que mesmo Felipe não tendo conseguido tudo que planejou, ele ainda me machucou e tentou fazer coisas contra a minha vontade, e isso durante todo o namoro. Foi um verdadeiro inferno ter me relacionado com ele. E custou muito para que eu conseguisse fazê-lo se afastar. Devo isso ao William. Conto sobre isso em outra oportunidade 

A questão é que, mesmo Daniel parecendo sincero em suas intenções e em suas palavras, eu ainda tinha medo e não conseguia deixar que um outro homem me tocasse intimamente. Havia o William, que se tornou um grande amigo depois de eu ter rompido o namoro com o Felipe, mas não podia deixar que alguém com tanta vocação pra ser meu amigo ocupasse outro lugar na minha vida. 

Com Daniel, a coisa era parecida. Nós éramos amigos e eu não entendia porque, de uma hora pra outra, ele sentia vontade de mudar isso. 

Mas também não posso negar que, de certa forma, estar com ele me trazia coisas boas e sensações incríveis. Eu sei que seria ótimo se a gente fosse além. Mas eu precisava de tempo para colocar as coisas no lugar. 

- Daniel, você tem que parar. - Disse, empurrando-o, delicadamente.

- Porque está me afastando? Não quer fazer amor comigo? Não gosta de mim? 

- Não é isso. Eu...

- Diga.

- Eu nunca fiz isso. 

- Como? Mas... e aquele seu namorado? - Me questionou confuso.

- Ele tentou diversas vezes, mas não aconteceu. Eu não me sentia segura sobre ele. 

- Ele te forçou a algo?

- Daniel, eu não sei se quero falar sobre isso.

- Por favor, confia em mim. Me deixa te entender. - Disse, se aproximando novamente.

- A verdade é que eu tenho muito medo. A forma como tudo aconteceu, ele fez com que eu me sentisse suja, me fez ter nojo de mim mesma. 

- Ele te machucou? 

- Ele... - Me silencio.

- Não precisa dizer mais nada. Eu já entendi. 

- Me desculpe.

- Hey! Não tem que se desculpar, você é a vítima dessa história. Ele deveria estar preso! 

- Olha, eu não queria falar sobre isso. Não sei porque te contei.

- Você pode confiar em mim, sabe disso.

Um silêncio paira sobre nós e alguns pingos de chuva nos surpreendem. Entramos no carro para nos proteger e continuamos a conversa.

- Eu ia mesmo sugerir pra gente entrar. Não quero ser pego hoje. - Diz Daniel, divertido.

- Podemos ir agora? - Desconverso.

- O que? Não, fica aqui... - Disse, tornando a me beijar. - Eu não sei você, mas eu quero continuar...

Eu consigo me lembrar perfeitamente do quão mágico eram os beijos de Daniel. Muitas pessoas me fazem sentir dentro de um filme, mas poucas dentro de um clássico romance. Na verdade, de clássico, nosso romance não tinha nada, éramos dois improváveis provando a teoria de que os opostos podem mesmo se atrair. Mas era mais que isso, não era só atração. Eu sabia que quem estava ali comigo era o garoto mais popular do bairro, o do carro maneiro, aquele com quem toda garota gostaria de sair pelo menos uma vez na vida. Era uma sensação poderosa ver aquele cara tão desejado comigo. E por mais incrível que tudo isso parecia, ele conseguia deixar tudo melhor, me fazendo sentir como se o fato de ele estar comigo é que fosse relevante. Eu adorava o modo como ele me enaltecia e me demonstrava o quão relevante eu era aos seus olhos. 

- Por que eu, Daniel? Você sabe que pode ter a mulher que quiser. 

- Do que ta falando? 

- Olha só pra você. Você é lindo, tem muitos amigos, tem uma vida emocionante. Qualquer garota diria sim pra você. 

Daniel sorri, divertido. 

- Eu estou supreso que veja assim. Bom, então agora é a minha vez. Você a garota mais interessante que eu já conheci, você é linda, inteligente, pura, elegante. E eu tô só começando.

- Não tem que ser tão gentil comigo...

- O que? Acha que estou sendo gentil? - Indagou, inconformado. - Maya, eu admiro você e desejo você. Quero fazer amor com você! Eu não sei o que aquele babaca fez com você, mas só de imaginar, eu sinto uma raiva enorme. Pensar que alguém te fez mal, me faz sentir incapaz, porque eu não estava lá pra te proteger. Mas eu tô aqui agora, e nem ele e nem ninguém vai se aproximar de você assim de novo. Você tem a minha palavra. 

- Foi tudo culpa minha, eu devia ter pedido ajuda desde o começo, mas não quis envolver ninguém nisso. Assim como não quero envolver você.

- Nem pense em me afastar de você de novo. Isso não vai acontecer!

- Eu não quero te afastar. 

Daniel me abraça terno. Eu moraria, facilmente, naquele abraço. 

- O que eu tenho que fazer pra você confiar em mim? - Sussura no meu ouvido.

- Eu confio em você.

- Então me deixa te ensinar...

- O que? Me ensinar? 

- Sim... Prometo não machucar você.

- Não Daniel, eu não quero! - E me afasto.

- Calma. Eu não vou te fazer mal. Vem cá. - Disse, me prendendo no seu peito. - Lembra de quando você era só uma criança e ficou encantada quando te fiz um barco de papel? 

- Lembro. - Digo, feliz com a lembrança, deixando escapar um sorriso.

- Você não ficou satisfeita por ganhar o barco, e não sossegou até aprender a fazer seu origami. 

- Sim. Eu faço esses barcos até hoje.

- Pois agora eu quero te ensinar a navegar. Quero que você confie em mim e me deixe te levar pro mar. 

- Ainda estamos falando de barcos? 

- Você sabe que não. - Sorri. - Eu não quero só fazer amor com você, Maya. Quero apagar qualquer lembrança ruim que você tenha sobre suas experiências. 

Com essas palavras, Daniel tentava me levar à viagem mais emocionante na minha vida. Sua mão me acariciava lentamente o rosto e, sem rodeios, desabotoava minha camisa. Seus dedos logo me convidavam a afastar minhas pernas levando seus toques aos lugares mais promissores do mar.

- Tira a mãozinha, eu não vou te fazer mal... - Ele sussurava.

Eu até tentava segurar as mãos de Daniel, até que ele as afastou e, carinhosamente, me prendeu com seu corpo, me abraçando sem frestas entre nós.

- Daniel, por favor...

- Me deixa te ensinar...

- Não foi assim que eu planejei a minha primeira vez.

- Olha pra mim. Eu não sou como ele e não vou machucar você.

Ao contrário de Felipe, Daniel era gentil com as palavras e com os gestos. Delicadamente me puxou e me pôs sobre seu colo, deixando claro o tempo todo que ele não faria o que eu não quisesse. Eu estava totalmente hipnotizada com aquele sorriso e aqueles olhos verdes tão expressivos, não percebi ou não me importei quando as coisas ficaram mais quentes entre nós.

Em dado momento, eu senti medo. Não de Daniel, mas do que estava prestes a acontecer. Porque parte de mim ainda estava presa naquela noite com Felipe, e em um surto, me afastei e pedi para que ele parasse.

- O que foi? É por que eu tô sem proteção? - Perguntou.

- Não. É que... Eu não posso, não ainda.

- Tudo bem, eu espero. Não vou forçar nada com você.

- Obrigada. - Sorri.

- Mas não quero que sinta medo de mim. Tudo que eu quero é te fazer bem.

- Eu não estou com medo de você, eu só...

- É ele, não é? - Perguntou.

- Me desculpe. - Admiti.

- Tá tudo bem. Eu já disse que espero.

Daniel me encostou em seu ombro e eu me deliciava com o cheiro singular dos seus cabelos. Enquanto ele segurava minha mão e deslisava meu anel no meu anelar, ao contar suas teorias filosóficas sobre a vida à dois, eu era guiada por sua voz a fantasiar aquele bad boy com anéis caros colocando uma aliança no meu dedo. Mas logo acordei do meu sonho, ao notar pelo horário, que eu já deveria estar em casa.

(*Continua...)



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