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Ninho certo, passarinho errado - Parte 1: "Um a zero"

 

Quando a gente é jovem, a gente tem uma percepção diferenciada da vida. Asisstimos a filmes americanos e achamos que uma escola com atletas bonitões e líderes de torcida deveria ser uma realidade pra nós, normalizamos coisas como festas em casa com copos vermelhos e jovens se azarando numa lanchonete na hora do almoço. Eu, particularmente, sempre achei incrível todo esse glamour que pensamos ter na vida dos mais novos em outros países. 

Na adolescência, assistia a séries aos domingos pela manhã com um caderninho ao lado, onde eu escrevia frases e inspirações do que cada episódio me trazia e fazia sentir, isso me ajudava a compor. Também gostava de muitos clipes musicais, principalmente de um que assisti na sexta série. Nele, as pessoas se reuniam em um sítio e faziam coisas como acender fogueiras, brincar de adivinhações, ficar acordado até tarde e depois dormir fora da casa e, claro, trocar olhares com alguém.

Mas não tenho muito do que me queixar. Eu tive uma vida agitada na adolescência, quando passava as férias na casa da minha irmã que morava em outro estado. Todo ano eu contava os dias pra ir pra lá porque, pra mim, estar lá era como estar dentro de um desses clipes musicais.

Eu estava louca pra viver tudo isso de novo e, por incrível que pareça, a tal da lei da atração funcionou mais uma vez.

...

Não estava nem um pouco a fim de ir pra esse aniversário, ainda mais depois dos últimos acontecimentos que envolviam o Miguel (e sim, eu preciso atualizar vocês sobre isso também), mas topei ir assim mesmo. Escolhi uma roupa que eu adorava, estava com o cabelo impecável e por menos expectativas que eu tivesse, não podia ser pior do que ficar em casa remoendo sentimentos de vergonha e decepção. 

Assim que cheguei, Kevin lançou um belo sorriso e veio me cumprimentar com um abraço caloroso e empolgado. Adorei a recepção. E, pra vocês entenderem, Kevin e eu já éramos conhecidos de anos. Me lembro de quando mais nova, recebia dezenas de bilhetes dele que, na época, dava a volta na minha casa e os jogava pela janela do meu quarto. Éramos muito jovens e eu juro que nunca levei nada disso a sério. Nunca. 

Agora, adultos, as coisas mudariam um pouco entre nós. Kevin odiava que eu mencionasse o quanto ele era novo quando me fazia aqueles bilhetes divertidos. Tudo isso porque ele não suportava o fato de eu, um dia, tê-lo visto como uma criança desajeitada. Qualquer coisa que o fizesse lembrar disso, o deixava extremamente irritado. Jurei a mim mesma que naquele dia não responderia às suas provocações, dizendo que não importava o que ele dissesse, eu sempre o veria como o Kevin dos bilhetinhos. Eu seria educada.

Durante a tarde e a noite, ele parecia estar em todos os lugares que eu ia. No carrinho de churros, na mesa com minha amiga, e até na porta da geladeira. Uma amiga em comum ficou por um bom tempo insinuando coisas e nos incentivando a conversar melhor. Ah! E eu preciso dizer que, antes mesmo dessa festa, nós já havíamos conversado outras vezes. 

Kevin e eu já estudamos juntos, mas nossa amizade na escola era muito rasa. Ele era insuportavelmente inteligente e estava sempre dando a impressão de que trocaria de lugar com os professores se pudesse. Por essas e outras que me via obrigada a tratá-lo como o garotinho dos bilhetes, era impossível vê-lo de outra forma tendo ele comportamentos tão ridículos. Na minha opinião, nenhuma garota, em sã consciência, se interessaria pelo Kevin. A não ser pelo fato de ele já ter sido um marinheiro, o que torna a sua vida trezentas vezes mais interessante (só que não). Não sou uma deslumbrada, nenhuma dessas coisas, a inteligência, o patrimônio ou as escolhas emocionantes da vida, me trazem brilho aos olhos. A educação, a gentileza e o bom humor, essas sim. 

A fama do Kevin já não era muito boa nessa época, e as coisas só pioraram. Ele se tornou um homem escroto, o tipo de cara que gosta de falar pra Deus e o mundo com quem saiu e o que fez. Sério, qual a tara disso? Eu nunca me interessaria por alguém assim. Não, espera. O que foi que eu fiz????????

No dia seguinte ao aniversário, ainda estávamos no sítio, e eu ouvi coisas como: "Eu achei camisinha jogada no chão do quarto", "Ela estava muito bêbada, é por isso!", e o que mais me chamou atenção, "Eu duvido que o Kevin tenha dado sequer um selinho nela. Ela jamais daria bola pra um cara como ele!". Esse era o Teo, irmão do Kevin, conversando com alguns meninos da festa. Foi aí que entendi que todos estavam falando sobre mim. E até a primeira discussão de casal da festa acontecer, eu ainda era o assunto do domingo. 

Mas vamos lá, vou contar o que realmente aconteceu na noite passada, ou pelo menos o que eu lembro dela. 

Como mencionei, eu estava muito abalada com o ocorrido com o Miguel e isso foi motivo suficiente para que eu me embriagasse como uma descontrolada. Eu devia saber que algo aconteceria, sempre aconteceu quando inventei de beber assim. Como esquecer da penúltima festa da faculdade, quando jurei que o menino mais sem graça daquele lugar era bonito o suficiente para me fazer beber e me encorajar a falar com ele além das telas? (Eu não sei explicar o quanto estou rindo enquanto escrevo isso).

Há duas coisas, dentre várias, que me deixam extremamente vulneráveis: meu sono depois das onze e quatro copos de bebida. Eu não tenho ideia do quanto bebi nessa noite, parei de contar no quinto copo... Sei que estava bêbada o suficiente para ceder aos encantos do Kevin.

Me lembro dele se aproximando de mim e dizendo no meu ouvido: "Por que a gente não vai lá pra dentro e acaba com esse zero a zero?". Ele ama futebol, essa é a linguagem que ele entende. Ah, e esqueci de mencionar, mas o garoto dos bilhetes também já foi jogador de futebol por uns bons anos, participou de estaduais e tudo. Talvez, na minha cabeça nada sóbria, ele podia ser o atleta bonitão dos meus sonhos. Pode ser que isso explique o que veio depois. 

Nem sim, nem não. Eu simplesmente não respondi ao convite. Me lembro de ter ido conversar com algumas pessoas da festa, me esquecendo completamente do que havia acabado de acontecer. Chovia muito, e a luz do sítio acabou. Nada de gerador de energia, apenas velas improvisadas do lado de fora. Estava um clima lindo até, eu adorei. Mas minha opinião não importa muito, eu estava bêbada. 

Em certo momento, fui para a casa principal procurar o banheiro. Muito tonta, tentando equilibrar a lanterna do celular. Quando finalmente encontrei (ou pelo menos era o que eu achava), fui surpreendida com uma voz, que sussurrava:

- Você demorou!

- Quem está aí? - Perguntei, confusa.

(Continua...)

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