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O Jardineiro - Parte 4: "Do que tem medo?"

 

Estávamos saindo para conversar pela segunda vez. Chovia muito nesse dia, mas dessa vez fomos juntos. 

Eu tinha muito medo das pessoas que moram perto de nós achar que estivéssemos tendo algo, então havia uma preocupação enorme da minha parte para que tudo acontecesse com a maior discrição possível. Miguel não se importava tanto com isso. Saiu sem guarda-chuva e depois o fiz voltar para pegar, à essa altura, ao menos uma conhecida nossa teve a oportunidade de nos ver, mas não sabemos se ela realmente sabia.

Ele estava lindo. Durante todo o caminho, Miguel dizia que havia pensado em mim e sobre eu estar relacionada com a resposta de uma oração dele.

O tempo até colaborou e conseguimos ficar sentados perto do único estabelecimento que ainda estava aberto. Ali, comecei a notar que ele tinha muitas qualidades que me faziam sentir atraída por ele. E enquanto ele estava sentado, eu tentei me concentrar em tudo que ele falava sobre seu passado e suas escolhas na vida, mas só conseguia reparar no quão bonito e sexy ele conseguia ficar com aquela jaqueta de couro e aqueles óculos. Seus olhos conseguiam ficar ainda mais bonitos com aqueles óculos. 

O tempo se manteve firme durante um bom tempo, mas ao fim da noite, tivemos que nos esconder da chuva na cobertura de uma antiga fábrica. 

Indignado por ainda não ter conseguido me beijar, Miguel perguntou:

- Qual é o seu problema comigo? 

- Como assim?

Miguel parecia se esconder da chuva, e isso o deixava ainda mais perto de mim. A ponto de quase sufocar meu rosto com a sua respiração.

- É disso que eu estou falando. Você sempre se esquiva quando estou perto de você, como agora. - Disse ele me puxando e tentando me beijar.

- É que... Você está perto demais.

- Deve ser porque eu quero te beijar.

- Por favor, não.

- Você tem medo de mim, Maya?

- O que? Não. Claro que não.

- Algum trauma?

- Olha, eu não quero falar sobre isso com você.

- Tudo bem. Vou respeitar isso.

- Obrigada.

- Pode fazer isso quando tiver vontade.

- Eu não tenho nada pra dizer.

- Okay. Não vou te perturbar com isso.

- Desculpa se tenho frustrado você.

- É, você está. Mas eu sei que isso é questão de tempo.

- Como pode estar tão certo sobre isso? Como pode estar sempre certo sobre tudo?

- A única certeza que eu tenho é que ainda vou te beijar. 

- Você é muito confiante.

- Eu sei que você quer isso tanto quanto eu.

Miguel era de uma arrogância insuportável. Quem ele pensa que é pra falar por mim ou pra dizer o que eu quero? Eu podia até achá-lo bonito, mas aí querer beijá-lo é muito pra quem até então eu não conhecia quase nada. Seu excesso de confiança me irritava. 

Dando fim ao assunto, sugeri pra sairmos dali:

- É melhor a gente ir, antes que volte a chover.

- Isso, foge. É o que você faz de melhor.

- Eu vou acreditar que isso foi uma brincadeira e vou ignorar.

- Eu falei sério.

- Eu não estou fugindo. 

- Então está o que? Me enrolando? - Disse, impaciente.

- Olha só. Eu nunca disse que queria algo com você, você nunca me ouviu falar isso. Então do que está se queixando?

- Eu fui claro com você desde o início, você sabe exatamente o que eu quero.

- Mas isso não me obriga a querer o mesmo que você! 

- Não acredito que disse isso.

A notar pela sua expressão, me dei conta de que fui muito dura com Miguel e tentei amenizar as coisas:

- Desculpe, eu acho que fui um pouco grossa com você.

- Mais do que isso. Me fez sentir como se não fosse suficiente pra você.

- Não, eu não disse isso!

- Chega! Não quero ouvir mais nada. Anda, vamos pra casa. - Disse  puxando meu braço.

- Espera! 

- O que foi?

- Me deixa consertar isso. 

- Só tem um jeito de você fazer isso e você não parece muito à fim de colocar em prática.

- Eu sinto muito, estou tentando...

Frustrado comigo, Miguel caminhava em silêncio até minha casa. Pensei em puxar assunto e falar da jaqueta que ele estava usando, mas não queria correr o risco de magoá-lo mais uma vez por não medir as palavras. Então, compactuei com o silêncio. Chegando em casa, Miguel soltou:

- Eu vou te deixar consertar isso. Amanhã, às oito, na minha casa.

- Não posso ir na sua casa. 

- Por que não?

- Porque as pessoas irão pensar coisas erradas sobre nós.

- Você tá muito preocupada com o que os outros pensam. Devia pensar mais em mim.

- Ta bem, ta bem. Eu vou. 

- Ótimo, te vejo às oito!


*Continua...

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