O relato que irei contar é mais um clichê que poderia facilmente ter saído de um filme famoso de romance, mas não desses onde a mocinha conhece o mocinho, os dois passam por inúmeros perrengues até conseguirem ficar juntos pela primeira vez (na verdade, essa parte procede) e vivem felizes para sempre (essa parte ainda não sei).
...
Só pra deixar claro, eu não tenho ideia do quão envolvidos nas histórias que escrevo vocês podem ficar, mas houve casos em que as pessoas pensaram que tudo o que escrevo é sobre mim. E nem sempre é. Eu escrevo em primeira pessoa, sempre, mas posso estar só contando uma história sobre algo que ouvi ou presenciei. Enfim, vocês nunca saberão de quem eu estou falando. Deixo isso para a imaginação de vocês.
Mas, pra segurança de todos os envolvidos, como já disse uma vez, os nomes das pessoas relatadas serão sempre preservados, e também por segurança, todas as personagens femininas se chamam "Maya". Nada pessoal, ok? Foi só um padrão que encontrei.
Agora sim, vamos ao relato!
...
Uma curiosidade sobre mim é que eu amo ser surpreendida. Adoro o fato de como meus momentos mais simples da vida se tornaram as minhas lembranças mais gostosas. Conhecer o melhor amigo tentando vender um ingresso, descobrir o amor da minha vida fazendo uma prova, receber flores no aniversário ou ter que me hospedar em uma cidade que nunca pensei em ir pra atacar de jornalista. Todas essas coisas carregam algo em comum: eu nunca planejei nenhuma delas. E um sorriso enorme sai de mim quando me pego lembrando.
Esse relato também é sobre uma surpresa, dessas que, depois que acontece, a gente passa a noite se perguntando se aquilo realmente aconteceu ou se só dormimos demais e sonhamos com o que não devíamos.
Lá estava ele, todo reluzente colocando a cabeça pra fora da água, e passando a mão nos cabelos curtos de uma maneira extremamente sexy. Aos poucos, Julio se aproximava e quanto mais perto ficava de mim, mais eu sentia calafrio por estar com ele.
Mas vamos começar do início, né?
Era uma tarde comum e quente, primavera, muito calor, blábláblá... Julio já havia falado sobre irmos a um lugar legal juntos e nadar. E esse foi o dia. Assim, sem mais nem menos, com uma simples mensagem que dizia: "Por que ainda estamos secos? Pegue suas coisas, logo tô aí!" E tcharãm!
Julio, assim como eu, tem o espírito aventureiro. Gosta de natureza, motos, liberdade e (por que não?), não se prender a ninguém. Ele viveu um relacionamento longo há alguns anos e essa pessoa o fez se anular pra muitas coisas e, desde então, não quer namorar com ninguém tão cedo. Ta aí mais uma coincidência entre nós...
A gente se conhece já deve ter uns quatro ou cinco anos. Eu conhecia a irmã dele quando era mais nova, mas ele só apareceu na minha vida muito tempo depois. Já faz alguns meses, eu diria que mais de ano, que tivemos um lance. As coincidências entre nós eram muitas e chegamos a tentar ficar juntos. Foi leve, sem cobrança ou desespero, a gente só fez o que queria fazer. Mas lembram da irmã do Julio? Ela e a mãe pareciam não gostar muito da ideia e, com o tempo, acabei me afastando dele por sentir um desconforto muito grande sobre as mulheres da sua família.
Com a filha dele era diferente, eles frequentavam minha casa mesmo depois de não termos mais nada. Quer dizer, acho que a gente voltou a ser amigo depois disso. E nisso de sermos amigos, conversávamos sobre várias coisas, assuntos que iam de geléia a sairmos pra vários lugares.
Em um desses dias, calor de primavera, Julio me "raptou" e me levou pra um lugar que ele adorava ir pra nadar. Foi uma viagem um tanto quanto longa (e emocionante) de moto. Era um lugar muito afastado da cidade, e quando chegamos lá, soube que valeu cada quilômetro, minuto e frio na barriga.
Como um verdadeiro cavalheiro, Julio me dava a mão pra descer e sorria o tempo todo, mostrando contentamento por estarmos ali. Rapidamente, jogou a mochila, tirou o tênis e a camisa e sua encarada queria dizer que estava me esperando tirar a blusa e entrar na água com ele. Julio estava bem mais forte do que estava quando o vi pela última vez, era um tanto perturbador vê-lo assim, não consegui não reparar.
Eu havia contado a ele que não sabia nadar, e ele me ajudou a chegar em um lugar seguro na água:
- Como se sente? - Perguntou.
- Como uma criança aprendendo a andar. - Respondi.
- É exatamente como estou te vendo! - Disse, divertido.
Com todo cuidado do mundo, Julio me deixou em um lugar bem raso, onde eu pude me apoiar em algumas pedras enquanto via o belo e experiente nadador que ele era mergulhando ora até a queda d'água, ora até o fundo. Julio desaparecia no rio e reaparecia segurando meus pés embaixo da água. Em uma dessas, eu levei um susto tão grande, que precisei que ele me acalmasse:
- Cuidado com a cobra! - Gritou.
- Acho que tenho mais medo da água do que de algum animal.
- Devia ter medo dos dois. - Sorriu.
- Meu maior medo é morrer afogada! Nada me dá mais medo na vida.
- Hey! Isso não vai acontecer. Nem hoje, nem dia nenhum! Ouviu? - Me repreendeu.
- Não, não vai. - Concordei.
Ficamos ali por horas, até achamos um hobbie: caçar pedras bonitas, o suficiente para Julio querer levar alguma pra casa:
- Olha só pra essa. Está suja, e ninguém dá muita coisa pra ela, mas é linda. Eu vou levar pra minha casa, vou limpar e lapidar, e depois te dar.
- Sério?
- Sim. Toma, segura ela. Você fica aqui, onde crianças não se afogam. - Debochou.
E lá ia ele de novo, explorando as partes mais fundas do rio. Por vezes, ele ameaçou me levar pra onde estava mergulhando, mas quando soube do meu pavor em morrer afogada, ficou com medo de me traumatizar de verdade e não insistiu na ideia.
Já estava ficando bem tarde, quando Julio sossegou e me fez companhia ali, no raso:
- Julio, olha pra isso! - Disse, apontando pra lua.
- Uau, que linda! Eu não teria notado se você não dissesse. Você não acha que isso cria um clima perfeito pra gente?
- Do que ta falando? - O questionei.
A única resposta que tive foi um sorriso. Aliás, um belo sorriso. Estava tão acostumada a vê-lo como meu amigo, que havia esquecido do quanto Julio era bonito.
- Acho que algo me mordeu. Pode ver pra mim? - Disse Julio, virando-se e me pedindo pra passar as unhas nas suas costas.
Notei que suas costas estavam bem vermelhas, e também notei que parte de mim se sentia desconfortável fazendo isso. Uma corrente elétrica percorria todo meu corpo enquanto sentia sua pele na minha mão. Era inegável que algo acontecia entre nós, e pude ter certeza disso, quando depois de algum tempo, Julio se aproximou de mim e, como quem percebia que havia algo no ar, me abraçou:
- Vou te aquecer, você ta tremendo.
Eu estava envolvida naquele abraço, até que Julio me segurou e colocou minhas pernas ao redor da sua cintura, de modo que meu único escape era grudar no pescoço dele pra não me afogar.
Julio também estava tremendo, seus dentes batiam um no outro e ele me pedia o tempo todo pra abraçá-lo e deixá-lo quente. O que era impossível, já que estávamos na água.
Em um certo momento, os toques de Julio começaram a ficar mais intensos e eu notei que ele estava me acariciando, até que tentei me afastar e, quase me afogando, grudei no seu pescoço de volta.
- Não faça isso, mocinha! - Me repreendeu.
- Pode me levar pro raso de novo? - Pedi.
- Por que? Não confia em mim?
- Só estou com medo.
- Eu não vou deixar você se afogar.
- Por favor...
Julio fez o que pedi e me encostou sobre as pedras de novo, mas diferente do que pensei que faria, não soltou as mãos de mim e se aproximou ainda mais, até que tentou me beijar:
- O que ta fazendo? - Me esquivei.
- Eu achei que você quisesse.
- Eu não posso. Eu tenho uma pessoa, já te disse.
- Ele não é seu namorado! - Disse, tentando me fazer ceder.
- Mas isso não é correto. Não posso fazer isso com ele. Eu não gostaria que fizessem comigo.
- Devia pensar melhor sobre o que essa pessoa significa pra você.
- Olha, eu não to dizendo que não quero.
- E você quer?
- Sim, quero muito. É diferente estar com você, não sei se consigo explicar isso.
- Então você quer... - Disse, me roubando um selinho.
- Por favor, me deixa resolver isso primeiro. - Disse, virando o rosto.
- Não. Isso já ta resolvido, ele não é seu namorado! Ou é?
- Não, ele não é.
- Então não tem nada de errado.
Julio tentava me beijar o tempo todo, e apesar de me esquivar dele, era impossível fazer com que ele parasse. Eu não sabia nadar, então qualquer movimento poderia me desestabilizar, como várias vezes quase me afoguei tentando sair de perto dele. Eu sentia seus beijos no meu pescoço, sua língua quente. Aquilo de fato era quente. Ouvia sua respiração intensa no meu ouvido, e cada centímetro do meu corpo reagia a isso. Parte de mim queria sair correndo dali e evitar que algo pior acontecesse, e a outra parte queria ceder e finalmente beijá-lo.
Tínhamos uma química incrível e isso ficava claro em todas as vezes que ficávamos juntos. E como não lembrar disso, estando ali com ele. Minhas mãos tremiam, e não era de frio, era por sentir aquela pele molhada em contato com a minha, por imaginar o que poderia acontecer se eu já tivesse resolvido minha situação.
Já estava escurecendo, quando decidimos sair da água. Julio esqueceu sua toalha, e estávamos compartilhando a minha. Em uma brincadeira, nos prendemos na toalha e ficamos juntos, mais do que o permitido por lei.
Passei um leave-in nos cabelos e agora estava penteando, quando Julio me surpreendeu e me agarrou, de costas pra ele, afastou meu cabelo pro lado, e começou a beijar minha nuca de um jeito intenso e extremamente estimulante. Ele encaixava sua mão direita no meu pescoço e trazia minha cabeça pra trás tentando alcançar minha boca:
- Arrepiada? - Sussurrou ele no meu ouvido.
- O que você acha?
- Acho que quer o mesmo que eu. - Disse, me virando de frente pra ele e tentando me beijar mais uma vez, e dessa vez, foi por muito pouco.
Cheguei a sentir sua boca no canto da minha e aquilo só deixava a gente com mais vontade de consumar o beijo. Mas o fato de eu não ter dado um basta na suposta relação que estava vivendo, me faria sentir culpada e uma pessoa horrível.
- Você viu isso? - Perguntou Julio, apontando com os olhos para a lua. - Está bem em cima da gente, acho que essa é a confirmação!
- Confirmação? - Perguntei, desentendida.
- Sim, de que devíamos nos beijar.
- Não podemos. - Sorri.
- Me diz uma coisa. Você não sente saudade?
- De você, claro que sinto.
- Então por que não me procurou durante esse tempo? Por que ficou tão longe de mim?
- Eu não sei, talvez as coisas tenham ficado mais sérias entre nós e aí eu acabei me afastando. Na verdade, eu não sei. - Respondi.
Me afastei e peguei minha blusa pra vestir. Ele estava todo enrolado com a dele e me pediu para ajudá-lo.
- Eu também sinto saudade, muita. - Respondeu. - Deixa eu colocar em você. - Disse, pegando a blusa da minha mão e colocando em mim.
- Não precisa, consigo fazer isso.
- Vira, pronto. Estava melhor antes, mas não quero que mais ninguém veja seus peitos.
- Palhaço!
As coisas, definitivamente, ficaram bem intensas entre nós. E minha sugestão foi que fôssemos embora antes que ficasse ainda mais tarde.
Já era noite quando viemos embora, com a ajuda da lanterna do celular, iluminamos o caminho e conseguimos achar a moto.
Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. Em um dia, eu estava na casa do Miguel, e pensando no como gostaria que aquilo acabasse e, no outro, estava em um lugar incrível, mágico, romântico e exclusivo (sim, só tinha a gente lá) com meu amigo aventureiro tentando me beijar.
Ainda me pergunto como minha vida se tornou esse seriado. Tantas coisas já aconteceram, desde romances clichês a namorados acidentados, passando por triângulos amorosos e amores proibidos... Essa foi mais uma cena, de um episódio onde a mocinha está em pé de guerra com o cara controlador que diz que ela não pode sair sem ele e encontra seu lance do passado, os dois passam a tarde juntos, andando de moto em alta velocidade, chegam em um lugar que parece ter saído de algum cenário de Los Angeles, nadam até a noite, e se abraçam sob a luz da lua. Mas os dois não podem ficar juntos, porque agora, além do cara controlador, a mãe da mocinha não quer a amizade dos dois porque o julga perigoso demais pra ela.
Como eu me sinto sobre isso? Feliz. Não com as contendas que rodeiam nosso romance à la Romeu e Julieta, mas com a ideia de ter vivido isso com ele. Eu passei a noite toda pensando em como seria se aquele beijo tivesse acontecido, e isso me fez lembrar, inclusive, da vez em que me apaixonei por alguém. Foi bem parecido. Talvez as semelhanças com esse relacionamento tenha sido o que mais me tenha deixado intrigada.
Anos atrás, meu pai também não me aprovava com o Bruno, e torcia pra que eu voltasse com meu ex-namorado de todo jeito. Mesmo depois de saber que ele era um tremendo de um psicopata e me fez brigar com todos os meus amigos. Atualmente, eu estava com uma pessoa que não gostava nem um pouco da minha amizade com o Julio, e esse era um assunto frequente em nossas discussões. Mas, diferente daquela época, eu não permito mais que pessoas sejam invasivas comigo a ponto de opinarem sobre quem eu devo ou não manter em minha vida. E o simples fato de isso ser assunto para brigar, me fazia ter um motivo para querer romper o que tínhamos.
Eu só conseguia pensar no como me senti com Julio naquele dia. Livre, viva, radiante! Como nunca me senti na vida antes. Eu cheguei a dizer pra ele que aquela foi a coisa mais emocionante que eu fiz, depois das loucuras que fiz pela minha banda favorita. Julio me fez lembrar no quão boa pode ser a vida quando se tem poder de escolha. Espera, eu tenho esse poder! E é isso que quero colocar em prática!
...
Sobre a pedra? Eu estava brincando de jogar pedras na água e, em uma dessas, esqueci que estava com a pedra do Julio na mão e joguei. Ele chegou a mergulhar pra procurar, mas sem chance.
Eu ainda acho que isso significa que vamos voltar lá e encontrá-la. E já que ele gosta tanto de confirmações, se a encontrarmos, isso significará muito pra ele.
- Temos que fazer isso mais vezes! Foi muito bom estar com você lá. - Disse Julio.
- Temos. Eu ainda te devo uma pedra.
- Duas. - Corrigiu.
- Vai ter que me ensinar a nadar antes, não tem muitas na área infantil do rio.
- Tem até o final do verão pra me pagar!
*Continua... (Eu sei que que continua...)
Créditos na imagem: Filme "Diário de Uma Paixão" (2004)
.jpeg)
Comentários
Postar um comentário