- Daniel, você não precisa se fazer de forte pra mim, pode falar sobre qualquer coisa comigo e sabe disso.
- Qualquer coisa? - Perguntou.
- Sim, o que quiser.
- Então talvez eu deva te contar algo.
- Pode começar.
Ele, quase que sem jeito, se encostou no carro, cruzou os braços e, por um instante, pareceu desistir da ideia de me contar o que planejava. Mas logo começou:
- Tenho medo de não estar aqui.
- Do que tá falando? Você está doente?
- Não, é que... Não quero te afastar de novo pelo mesmo motivo.
- Bom, a gente se afastou porque você... - E não consigo terminar.
Eu perdi as palavras quando me lembrei do motivo pelo qual Daniel e eu nos afastamos. Ele se envolvia com drogas e afins, chegou a se tornar uma pessoa conhecida no bairro como alguém a ser procurado pelo que oferecia. Daniel nunca mostrou qualquer mudança ou arrependimento por isso, mas parte de mim se recusava a acreditar que ele ainda estava metido nisso.
- Eu posso ser preso. - Continuou.
- Você não pode estar falando sério! Como deixou as coisas chegarem a esse ponto? E seus filhos, já pensou nisso? Você tem que parar! - Disse, enfurecida.
- Eu penso nisso todo dia. Mas agora não tenho o que fazer, eu já tô envolvido nisso até o pescoço.
Respiramos por um tempo, era difícil pra ele dizer todas essas coisas, e mais difícil ainda pra mim descobrir que, em todo o tempo que passamos sem nos falar, ele continuava a mesma pessoa, e me preocupava andar com ele e correr perigo.
- Não sei o que dizer.
- Sinto muito, sei que deve estar decepcionada.
- Sim, estou.
- Por isso viemos pra cá. Não quero te colocar em perigo. Mas sei que não é o certo, eu só não sei como me sentiria com você se afastando de mim de novo. Você é tudo que me sobrou, e eu preciso que esteja em segurança.
- Não pode ficar se escondendo. - Adverti.
- Não posso ficar sem você. Não de novo.
Um silêncio de minutos pairou sobre nós, era muita informação para ambos.
- Obrigada por contar.
- Confio em você. - Ele respondeu.
- Mas agora não sei o que fazer sobre isso. - Disse a ele.
- Só me promete uma coisa.
- O que?
- Quando a coisa ficar feia, promete que vai correr pra longe de mim?
- Do que está falando?
- Se me pegarem, não quero que esteja por perto.
- Daniel! - O repreendi. - Não pense em nada disso agora, deve haver algum jeito da gente resolver isso.
- Não se inclua nisso, por favor.
- Não vou deixar você sozinho, me deixa te ajudar.
Daniel me olhou com um sorriso lateral, que me deixava na dúvida sobre ser ou não mais bonito que seu cabelo. Mas sabia que por dentro, havia preocupação e medo.
- Enquanto eu estiver aqui, vou proteger você.
- Você fala como se fosse morrer, estou odiando isso! - Disse, brava.
- Não irei morrer, você não vai se salvar sozinha. - E sorri.
- Não brinque com isso! - Digo, descontraída.
- Me responde, Maya.
- O que?
- O que faria se esse fosse seu último dia livre?
- Daniel!
- Vai, me responde. Falo sério.
- Não vou responder a isso, é ridículo!
- Bom, tem uma coisa que eu gostaria de fazer. - Diz ele.
- Por favor, não fume perto de mim! - Pedi, com medo, achando que isso pudesse ser o que ele mais quisesse fazer.
- Não farei isso. Talvez seja bom pra mim trocar de vício. - Diz Daniel, me surpreendendo com um beijo.
*Continua...

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