Pular para o conteúdo principal

Pedra, papel, tesoura - Parte 5: "Corra!"

- Daniel, você não precisa se fazer de forte pra mim, pode falar sobre qualquer coisa comigo e sabe disso. 

- Qualquer coisa? - Perguntou.

- Sim, o que quiser.

- Então talvez eu deva te contar algo.

- Pode começar.

Ele, quase que sem jeito, se encostou no carro, cruzou os braços e, por um instante, pareceu desistir da ideia de me contar o que planejava. Mas logo começou:

- Tenho medo de não estar aqui.

- Do que tá falando? Você está doente? 

- Não, é que... Não quero te afastar de novo pelo mesmo motivo.

- Bom, a gente se afastou porque você... - E não consigo terminar.

Eu perdi as palavras quando me lembrei do motivo pelo qual Daniel e eu nos afastamos. Ele se envolvia com drogas e afins, chegou a se tornar uma pessoa conhecida no bairro como alguém a ser procurado pelo que oferecia. Daniel nunca mostrou qualquer mudança ou arrependimento por isso, mas parte de mim se recusava a acreditar que ele ainda estava metido nisso.

- Eu posso ser preso. - Continuou.

- Você não pode estar falando sério! Como deixou as coisas chegarem a esse ponto? E seus filhos, já pensou nisso? Você tem que parar! - Disse, enfurecida.

- Eu penso nisso todo dia. Mas agora não tenho o que fazer, eu já tô envolvido nisso até o pescoço. 

Respiramos por um tempo, era difícil pra ele dizer todas essas coisas, e mais difícil ainda pra mim descobrir que, em todo o tempo que passamos sem nos falar, ele continuava a mesma pessoa, e me preocupava andar com ele e correr perigo.

- Não sei o que dizer. 

- Sinto muito, sei que deve estar decepcionada.

- Sim, estou.

- Por isso viemos pra cá. Não quero te colocar em perigo. Mas sei que não é o certo, eu só não sei como me sentiria com você se afastando de mim de novo. Você é tudo que me sobrou, e eu preciso que esteja em segurança.

- Não pode ficar se escondendo. - Adverti.

- Não posso ficar sem você. Não de novo.

Um silêncio de minutos pairou sobre nós, era muita informação para ambos. 

- Obrigada por contar. 

- Confio em você. - Ele respondeu.

- Mas agora não sei o que fazer sobre isso. - Disse a ele.

- Só me promete uma coisa. 

- O que?

- Quando a coisa ficar feia, promete que vai correr pra longe de mim? 

- Do que está falando?

- Se me pegarem, não quero que esteja por perto.

- Daniel! - O repreendi. - Não pense em nada disso agora, deve haver algum jeito da gente resolver isso.

- Não se inclua nisso, por favor. 

- Não vou deixar você sozinho, me deixa te ajudar.

Daniel me olhou com um sorriso lateral, que me deixava na dúvida sobre ser ou não mais bonito que seu cabelo. Mas sabia que por dentro, havia preocupação e medo. 

- Enquanto eu estiver aqui, vou proteger você.

- Você fala como se fosse morrer, estou odiando isso! - Disse, brava.

- Não irei morrer, você não vai se salvar sozinha. - E sorri.

- Não brinque com isso! - Digo, descontraída. 

- Me responde, Maya.

- O que?

- O que faria se esse fosse seu último dia livre? 

- Daniel! 

- Vai, me responde. Falo sério.

- Não vou responder a isso, é ridículo!

- Bom, tem uma coisa que eu gostaria de fazer. - Diz ele.

- Por favor, não fume perto de mim! - Pedi, com medo, achando que isso pudesse ser o que ele mais quisesse fazer.

- Não farei isso. Talvez seja bom pra mim trocar de vício. - Diz Daniel, me surpreendendo com um beijo. 


*Continua...



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ginger - Parte 4: "Menina má"

  Foi desafiador trabalhar com tanta dor de cabeça. Meu único pensamento era chegar logo em casa, ficar no mínimo trinta minutos no banho e me esparramar na minha cama. E foi o que fiz quando cheguei.  Assim que saí do banho, a campainha tocou. Era uma entrega. Uma caixa branca e cintilante, muito bonita, com um laço feito à mão, um tanto quanto discreto. Não havia remetente, não era meu aniversário, nenhuma data importante... Quem, afinal, me mandaria um presente sem nenhum motivo?  Fiquei surpresa ao abrir a caixa e ler o bilhete que dizia: "Quero que use isto hoje a noite!". Claro, era do Vitor.  Na mesma hora, liguei para ele: - Não quero que fique me mandando presentes! - Disse, brava ao telefone. - Abra a porta.  Inacreditável. Vitor já estava me esperando na porta.  - O que foi aquilo? - Confrontei-o. - Eu espero que esteja na moda sair de roupão, porque não temos muito tempo. - Disse ele, brincando com o fato de eu não ter me trocado. - O que faz aq...

Pedra, papel, tesoura - MIGUEL - Parte 5: "Na coleira"

Miguel parecia ter acumulado uma vontade incontrolável de fazer o que estava prestes a fazer. Em um impulso aparentemente motivado, se aproximou de mim, segurou minhas pernas e me colocou em cima da mesa. Eu resistia, mas ele me beijava intenso e não me dava sequer um segundo para pedir que ele parasse.  Eu queria poder dizer que estava bem e que estava gostando de estar com ele, mas ainda estava machucada com o que soube sobre Daniel, meu pensamento estava longe e eu não conseguia estar totalmente presente naquele momento. A verdade é que eu só pensava no quanto gostaria de estar vivendo aquilo com ele. Miguel era incansável e parecia não desistir de tentar me conquistar. E eu confesso que não fazia esforço algum para isso dar certo. Com o tempo, ele notou minha frieza e isso era motivo o bastante para que ele brigasse diariamente comigo. Eu passava muito tempo com os meus amigos antes de termos algo, e ele estava disposto a tirar isso de mim. Frases como: "Eu não vou deixar uma ...

Carta 4 - "Atuando por um final feliz"

As pessoas estão acostumadas a me chamar de fria, mas elas não viram os trechos que escrevi tentando fazer uma música pra você. Elas não me viram enquanto eu repetia o DVD do John Mayer, feliz por na noite passada você ter acertado ao colocar "Free Fallin'" pra tocar no seu celular sem imaginar que é a música que mais combina com você. Elas também não viram sua sessão de fotos no quarto, aquela que pedi mil vezes pra você topar fazer, só porque eu descobri uma pose em que você ficava absurdamente bonito mostrando suas tatuagens. Uma pessoa fria não seria tão observadora... E sabe o que mais? Elas não viram o quanto de mim quis chorar quando você disse que logo iria embora. Eu sei que estou acostumada a ficar sem você, e que Deus continua sendo bom em nos permitir viver o que queríamos, e eu tento, eu juro que tento imaginar uma vida em que tudo dá certo pra nós, como você sempre diz. "A gente vai poder se ver mais vezes, eu não vou deixar de vir aqui, acredita em mim...