Fazia frio, quando cheguei no local combinado por nós durante a semana. Miguel parecia ter vindo dos anos quarenta para me encontrar, uma mistura de jeans, algodão, camurça e couro. Descia as escadas calmamente e, com a marra de um bad boy incompreendido, afastou as pernas enquanto se posicionava no banco para me olhar:
- Você veio mesmo! - Disse ele.
- Por que eu não viria?
- Porque é uma medrosa.
- Eu não sou medrosa! - Enfrento.
- Sim, você é. Ou a gente teria vindo junto pra cá.
- Já sabe o que eu acho.
- É, eu sei. Os vizinhos. Sabia que um deles já falou comigo sobre você?
- O que? Sobre mim?
- Sim. Ele me perguntou porque ainda não fomos vistos juntos, e que eu devia falar com você logo, porque tudo indica que você quer o mesmo que eu.
- Quem te disse isso?
- Não importa. - Respondeu.
- Claro que importa. Vai, me diz. - Insisto.
- Foi o Jorge.
- O que? Eu nunca disse nada parecido com isso pra ele. De onde ele tirou esse absurdo?
- Eu não chamaria de absurdo.
- Ele sofreu um acidente e nunca mais foi o mesmo depois daquela pancada. Você não devia acreditar do que ele diz.
- Eu não acreditei.
- Menos mal.
- Mas gostei da ideia.
Nesse momento, eu não sabia onde enfiar a cara, tamanha vergonha que senti.
- O que mais ele te disse? - Perguntei.
- Esquece o que ele disse. Ele só me encorajou a fazer o que eu já queria e devia ter feito há muito tempo.
- Está dizendo que está aqui por causa dele?
- Estou aqui por sua causa. Eu sempre te vi com outros olhos, Maya. - Disse ele, tirando os óculos, parecendo tornar o clima mais sério entre nós. - Mas você era só uma menina, uma menina muito bonita, e eu era um homem com idade para ser seu pai e também tinha namorada. Passei oito anos namorando, mas nem por isso deixei de te olhar. Hoje você é uma mulher, e sei que valeu a pena esperar. Meu interesse por só aumentou, a ponto de eu não conseguir mais ignorar isso.
Eu mal conseguia respirar com tantas coisas sendo reveladas por ele de uma só vez.
- Não sei o que dizer. Eu não imaginava nada disso. Eu sequer consegui digerir tudo o que você me disse naquelas mensagens. Foram tantas coisas, fiquei assustada. Talvez fosse melhor se a gente tivesse tido essa conversa pessoalmente, porque você disse que espera uma resposta e eu nem sei exatamente o que quer que eu responda, já que não me fez nenhuma pergunta específica. Pareceu mais um desabafo da sua parte. E toda aquela história de ter intenções de algo mais sério comigo... A gente sequer se conhece, é tudo tão estranho e novo.
- Está falando sério? Você nunca reparou?
- Não tinha como eu saber. Você só falava comigo sobre a minha cachorrinha.
- Eu queria o telefone dela.
- Eu não tô ouvindo isso! - Reagi, divertida.
- Eu falo sério. Tão sério que não desisti até conseguir. E foi por isso que eu resolvi falar logo sobre meu interesse, porque já perdi tempo demais. Desculpa se eu assustei você com isso.
- É que... Todo esse papo de interesse sério, boas intenções, e o fato de tudo ter sido tão depressa, fazem parecer que espera que eu decida algo pra que você possa ficar e tentar ou possa sair e continuar sua vida. E quando você diz tudo isso, eu só sinto vontade de xingar você, porque você é um homem livre e pode ir pra onde quiser. Você colocou um peso muito grande sobre mim, quando nós dois sabemos que suas decisões não precisam depender de mim.
- Eu já decidi. Eu sei exatamente o que eu quero. Está bem na minha frente.
- Como pode ter decidido isso tão rápido? - Pergunto, incrédula.
- Pra você pode parecer que foi rápido porque talvez nunca tenha me olhado como eu te olho. Acho até que você nunca olhou pra mim, assim, de pertinho.
- Eu já olhei você. E seus olhos são verdes.
- Azuis! - Ele corrige.
- Ah, desculpa. - Digo, constrangida.
- Tudo bem. Vai ter tempo pra me olhar nos olhos quando a gente estiver junto.
- Está tão certo disso.
- Algo me diz que devo ser confiante.
*Continua...

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