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Pedra, papel, tesoura - Parte 3: "Refúgio"

Algumas semanas depois do episódio com o hospital, fiquei sem notícias do Daniel, até que tive uma visita inesperada:

- Oi!

- Daniel!

- Hoje é você que precisa me salvar.

- O que aconteceu?

- Aqui não.

- Tá, eu só vou pegar minha bolsa.

Daniel dirigiu sério por todo o caminho e eu não me atrevi a perguntar nada até que ele quisesse falar, sequer questionei o fato de estarmos indo sabia lá Deus pra onde.

Quando finalmente parou o carro, estávamos em um lugar ao qual nunca fomos antes.

- Que lugar é esse? - Perguntei.

- O meu refúgio. É pra onde eu venho quando preciso ficar sozinho.

- Bom, dessa vez você não está. - Digo, lhe acolhendo.

Sem perder tempo e sem que eu precisasse indagá-lo sobre qualquer coisa, ele já logo resolveu tocar no assunto:

- Sabe, já teve a sensação de que sua vida é um desperdício? 

- O que? Como assim? 

- Eu não sei até hoje se estou fazendo a coisa certa. - Disse ele, enquanto tirava algo do carro. - Cerveja? 

- Não, eu não bebo. - Recusei.

- Ah qual é, eu preciso que me faça companhia hoje. 

Resisti por um tempo, mas resolvi ceder. Eu faria qualquer coisa pra que ele se sentisse melhor naquele momento. Estava realmente preocupada porque nunca havia visto Daniel daquela forma tão abatida:

- Ta bem, me dê uma. 

- Você não deve saber o que é isso, ainda é muito jovem. Deve ter uns... Com quantos anos você está?

- Dezessete.

- O que? Me devolve isso! - Disse ele, pegando de volta a cerveja que havia me dado. Mas logo voltou atrás. - Quer saber, você precisa de um pouco de diversão, pode ficar.

- Você vai dizer ou não? - Perguntei, impaciente.

- É a Vanessa. - Respondeu, enquanto dava um grande gole na cerveja. 

- O que tem ela? 

Vanessa era a namorada de Daniel, com quem teve os dois filhos. Eles moravam juntos há um bom tempo. Nunca soube da existência de qualquer problema entre eles, pareciam uma família perfeita. Saiam juntos aos domingos, faziam festinhas para os filhos e sempre pareceram se dar bem, a não ser pelo fato de eu nunca ter visto os dois tendo qualquer demonstração de carinho em público.

- Nós vamos terminar.

- O que? Mas como?

- Tivemos uma briga feia hoje. 

- Mas casais brigam o tempo todo, isso deveria ser normal.

- Não, você não está entendendo. Nós decidimos isso, já está feito. - Disse dando mais um gole. - Eu só não quero ficar longe dos meninos, não quero ter que ver os meus filhos uma vez por mês. Que droga de pai eu seria fazendo isso?

- Do que está falando? Isso não vai acontecer!

- A família dela não é daqui, ela provavelmente vai querer voltar pra cidade dela.

- Daniel, se acalma. Você está pensando em coisas que ainda não aconteceram! 

- Já está feito! - Gritou. E ao passo que notou o meu espanto com o seu grito, se redimiu. - Desculpe, eu... Não queria gritar. Eu só não sei o que fazer.

- Vocês precisam conversar.

- Acha que eu não tentei isso? 

- Bom, na pior das hipóteses, vocês vão precisar estabelecer uma forma de ambos participarem da criação dos seus filhos. Tenho certeza que vão conseguir resolver isso.

- Maya... O que eu estou fazendo? Estou tendo uma conversa dessas com uma adolescente? 

- Por que me procurou se não quer minha ajuda? 

- Eu quero. Quero muito. - Disse, enquanto me abraçava, terno.

- Vocês vão ficar bem. 

Daniel ficou em silêncio pelas próximas duas horas que ficamos ali, bebendo e ouvindo suas músicas favoritas do lado de fora do carro.

Eu soube, dias depois, que as coisas haviam mesmo acabado entre eles. 

*continua...


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