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Pedra, papel, tesoura - Parte 2 - "Anjo?"

Não era difícil eu me sentir mal com essas coisas, mas nesse dia, logo após o almoço, senti um desconforto enorme, achei que fosse soltar tudo. Saí para fora, para tomar um ar, e lá estava ele:

- Você não tá bem, né?

- É, talvez tenha sido algo que eu comi.

- Você é alérgica? 

- Se eu for, estou descobrindo agora.

- Meu Deus! Pegue seus documentos, eu vou pegar o carro!

- O que? Calma.

- Você pode estar assim por causa de uma alergia e pode até morrer se não cuidar disso. 

- Não é isso, é só um desconforto.

- Nós vamos para o hospital agora! 

- Não precisa de tudo isso, Daniel.

- Não foi uma sugestão!

Daniel entrou comigo na minha casa e pegou os meus documentos, eu estava sozinha e ele ficou apavorado com medo daquilo ser uma crise alérgica.

Fomos juntos ao hospital naquele dia e, por sorte, não foi nada grave, mas descobri que meu corpo reage mal a certos alimentos. E que, graças ao Daniel, eu descobri antes que isso se tornasse algo mais sério.

- Parece que está sempre me salvando de algo. Brinquei.

- Você está sempre se metendo em perigo. - Riu.

- Obrigada pelo que fez. Eu estava sozinha e não sabia o que fazer.

- Não tem que me agradecer, estarei sempre por perto. 

- Você é incrível.

- E o que mais?

- Não, eu não vou dizer isso. - Resisti.

- Estou esperando.

- Daniel!

- Anda, diz!

- E tem o cabelo mais lindo de todos. - Disse, cedendo.

- Agora sim. - Disse ele, satisfeito.

- Por que me obriga a dizer isso sempre?

- Porque eu adoro o jeito como você diz isso.

Desde que o conheço, todas as pessoas da terra falavam sobre o quanto o cabelo do Daniel era bonito. De fato, era mesmo. Era liso, brilhante, escuro. O corte que ele fazia moldava seu rosto de um jeito muito peculiar, e todos os elogios que recebia faziam com que ele pensasse que Deus havia sido extremamente generoso com ele e feito com que ninguém mais no universo pudesse ser elogiado por isso senão ele mesmo.

- Mais alguma coisa?

- Não, estou satisfeito agora.

- Ótimo.

- Hey! Tenha cuidado. 

- Eu tenho um anjo da guarda, por que vou me preocupar?

- Porque ele pode estar lavando os cabelos e demorar um pouco pra te salvar.

- A gente se vê!

Eu adorava o fato da gente ser amigo de novo, já tinha quase esquecido do quão divertido era estar com Daniel. É uma pena que nas duas últimas vezes que estivemos juntos foi com ele me ajudando em alguma situação inusitada. Mas era bom, de alguma forma, tê-lo de volta.

Essas não foram as únicas vezes em que Daniel apareceu para me salvar. Por vezes, quando sentia que meu mundo ia desmoronar, lá estava ele, sempre pronto e solícito para fazer o que fosse preciso. Foi assim quando minha cachorrinha precisou ir ao veterinário às pressas, ou quando meu pai se machucou no telhado, e até mesmo no momento mais difícil da minha vida, quando perdi a minha irmã, no período em que estávamos afastados, ele estava lá, sem dizer uma só palavra, mas estava lá. Eu sabia, com toda certeza, que podia contar com ele. E nada mais justo do que tentar ser a mesma pessoa para ele. 

Algumas semanas depois do episódio com o hospital, fiquei sem notícias do Daniel, até que tive uma visita inesperada:

- Oi!

- Daniel!

- Hoje é você que precisa me salvar.


*continua...



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