- Vamos?
- Daniel? - Pergunto, incrédula. - O que faz aqui?
- Uma princesa precisa de uma carruagem, não acha? - Brincou.
Nossa história começa aí. Pra ser mais exata, começa há nove anos, quando Daniel e eu ainda éramos crianças, quer dizer, eu era criança, devia ter meus seis, sete ou oito anos quando nos tornamos amigos. Ele e o irmão, Henrique, foram as primeiras pessoas com quem, conscientemente, pude me socializar desde que meus pais e eu nos mudamos para cá. Ele e Henrique tinham pouca diferença de idade entre si mas, comparado à mim, onze anos nos distanciavam. Calculando rapidamente, dá para dizer que Daniel já tinha dezenove quando eu completei oito.
Haviam outros amigos, como os irmãos André e Gustavo, que vez ou outra me chamavam para a casa deles pra gente tomar banho de mangueira. Nossas mães eram amigas e eu sempre ficava com eles quando não havia ninguém em casa.
Minha convivência com garotos na infância, maior do que a com garotas, contribuiu para que eu me desse bem com pessoas do sexo oposto. Enquanto as meninas da minha idade falavam mal das roupas uma da outra, se reuniam com a desculpa de jogar vôlei mas o que faziam mesmo era paquerar os garotos que todas elas se recusavam a acreditar que eram meus amigos, eu me ocupava aprendendo truques de mágica, fazendo origamis de barcos e aviões e experimentando coisas estranhas como salgadinho com sorvete ou caramelo com refrigerante.
Fato é que sempre me dei melhor com os meninos. Tenho amigas que até hoje não se conformam com seus irmãos se darem melhor comigo do que com elas, e também as que não entendam porque eu sempre fico do lado dos seus namorados quando me perguntam sobre quem está com a razão em seus relacionamentos. Óbvio que não faço isso com intuito de ser juiz da vida alheia, mas entendo a maneira como os homens se sentem em uma relação, acho até que compartilho do pensamento. E isso é inaceitável para elas.
Eu me divertia fazendo coisas inapropriadas ou não tão comuns para as garotas na época, como jogar bolinha de gude, testar os limites ao descer ladeiras de bicicleta, subir em árvores, acampar e cozinhar como sobreviventes em um quintal nada ameaçador, contar histórias proibidas, assistir a filmes de lutas e se esconder atrás do carro da fumaça. Sempre fui muito aventureira e curiosa, e não conseguia fazer muita coisa com as poucas amigas que tinha, por vezes três ou quatro anos mais nova que eu, que só queriam sentar na calçada e papear sobre coisas inúteis da escola.
Com meus amigos, eu tinha tudo o que queria: diversão, relações verdadeiras e proteção, já que eles estavam sempre prontos pra me tirar da rua quando algum bêbado aparecia. Para mim, essas coisas foram essenciais para que hoje eu entenda um pouco sobre como a maioria dos homens pensa, ou pelo menos é o que eu acho. Meu ciclo de amizades, nos dias de hoje, ainda é composto, em sua maioria, por garotos, e eu acho incrível conviver com todos eles.
Com o Daniel, era como se eu pudesse viver todos os dias com um irmão, nós adorávamos a companhia um do outro, até que ele deu início a uma fase de sua vida que chamo de "fase sombria". Daniel deixou de ser o garoto dos origamis para ser o cara da seda, se é que me entendem... Eu já não o reconhecia, sua forma cuidadosa de me tratar agora dava lugar a uma personalidade agressiva e nada gentil. Meus pais observaram isso e me afastaram de Daniel por completo.
Eu ainda tinha contato com o Henrique, afinal, ele sempre foi considerado um exemplo entre os garotos da idade dele, era muito amado por sua família e admirado pela minha. Ele era tão querido por meu pai, que os dois tinham conversas muito pessoais. Não havia uma vez sequer que meu pai, após uma conversa com Henrique, não entrava em casa dizendo aos quatro cantos o quanto aquele menino era bom e direito.
Henrique tinha a confiança de todos da minha casa, era ele o responsável por arrumar meu computador, por me aconselhar sobre o futuro e por me dar dicas de universidades para estudar. Ele também era o meu melhor cliente quando comecei a trabalhar em uma venda aqui perto. Dá pra acreditar que ele deixava de comprar pães frescos na padaria só para comprar comigo? Pois é, é o que garotos como o Henrique fazem para externalizar sua gentileza e amizade. Acho que falo por todos quando digo que ele era um cara perfeito.
Tão perfeito que meu pai achava que eu devia namorar com ele. Desde a vez que ele saiu da minha casa e os dois tiveram uma conversa do lado de fora, que meu pai não entrava mais sem me dizer: "Você sabe que ele gosta de você, né?" Eu nunca pensei muito sobre isso, mas meu pai jurava de pé junto que ele contou isso a ele, mas que tinha vergonha de me falar. Eu sempre achei um absurdo sem tamanho, considerando o fato de Henrique ter, pelo menos oito anos a mais que eu, idade o suficiente para ter coragem de falar com uma garota, e se isso fosse mesmo verdade, ele teria me falado.
Anos se passaram, e Henrique acabou se casando e se mudando para um outro bairro, seus pais também já não moravam aqui. Eu o via muito pouco quando ele ia ao meu estágio resolver alguma burocracia jurídica e quando vinha pra cá pra visitar o Daniel, que acabou ficando com a casa e morando com seus dois filhos e a namorada. Parecia que eu havia perdido o contato de vez com os irmãos Martins, mas algo ainda me ligava a eles.
Certo dia, precisava ir a um casamento, e o meu amigo, que ficou de me buscar, teve problemas com o carro um pouco antes da hora combinada de irmos. Ao ver meu pai desesperado na rua, gritando que meu amigo era um irresponsável, Daniel ofereceu ajuda.
Ao sair de casa, sem saber da situação, me deparei com Daniel parado ao lado do carro, segurando a porta aberta pra mim e vestindo uma roupa muito elegante. Segurou na minha mão e disse:
- Vamos?
- Daniel? - Pergunto, incrédula. - O que faz aqui?
- Uma princesa precisa de uma carruagem, não acha? - Brincou.
- O que aconteceu enquanto eu estive lá dentro?
- Conversei com seu pai hoje.
- Mesmo?
- Sim.
- E o que ele disse? - O questiono, desconfiada.
- Disse que sente muito minha falta, que cometeu um grande erro me afastando de você e está disposto a mudar isso a partir de agora.
- Tá legal, quanto eu te devo? - Pergunto, divertida.
- Tá bom, talvez ele não tenha dito isso. Talvez eu tenha me enganado e ele só disse que houve um acidente com o garoto que iria te levar e ele não estaria aqui para fazer isso. - Confessa.
- E você se ofereceu?
- Sim, eu fiz isso. Mesmo sabendo que ele me odeia.
- Ele não te odeia! - Retruco.
- Claro que não, qualquer pai afastaria um amigo onze anos mais velho de sua filha. Eu entendo o que ele fez.
- Sabe que não foi por isso, não é?
- Não? Então posso considerar que tenha algo a ver com o meu cabelo irresistível?
Eu tinha quase esquecido do quanto Daniel gostava de brincar com o fato de ter um cabelo realmente bonito e todas as pessoas elogiarem isso.
- Vamos, está na hora! - Disse ele me despertando de uma viagem onde eu tenho oito anos e estou dizendo que ele precisa parar de falar do cabelo lindo que tem.
Assim que entro no carro, tento me atualizar de como estão as coisas:
- Como você está?
- Vivo. E isso basta. - Friamente responde.
- É o seu lema.
- Sim, é assim que gosto que sejam as coisas. E você? Soube que entrou para a faculdade... - desconversou.
- É, estou no primeiro ano. - Respondi. - Eu achei que as coisas mudariam agora que não estou no ensino médio, mas muita coisa ainda é a mesma.
- Já foi a alguma festa?
- Ainda não.
- Está explicado. - Disse ele parecendo ser tão óbvio.
- O que? Você acha que a faculdade só pode ser divertida se você for a festas?
- Você se ouviu?
- Ta bem, isso faz sentido. - Admito.
- Eu te levaria às festas da minha turma, mas precisaria criar uma máquina do tempo antes. Já fazem alguns anos desde que me formei.
Daniel, agora com vinte e oito anos, era um engenheiro civil e tinha uma sociedade com um amigo. Como mencionei, já tinha dois filhos, e o mais novo, tinha só um ano.
Confesso que de todas as coisas que já o imaginei fazendo, nunca pensei que ele se tornaria esse homem. Mas uma coisa sempre foi muito evidente, sua inteligência e esperteza para cálculos. Estava feliz por vê-lo realizado.
- Você pode ter razão. Acho que vou ter tempo para pensar em alguma forma de não estudar tanto.
- Hey! Eu ainda posso te mostrar um pouco de diversão.
- Ah claro, eu adoro festas infantis! - Zombei.
- Está falando dos meus filhos?
- Sim, como eles estão?
- Muito bem. Hoje o mais velho faz aniversário e vamos fazer algo para comemorar. Você devia vir, é bem apropriado para a sua idade. - Diz, sarcástico.
- Muito engraçado! - Ironicamente respondi.
- É difícil acreditar que já fazem tantos anos. Eu ainda olho pra você e vejo aquela menininha de oito anos, com os cabelos enormes tentando fazer um origami.
- Você e o Henrique fazem parte das minhas melhores lembranças da infância.
- Sinto falta disso.
Na tentativa de mudar o clima dramático que estávamos criando, o convidei para a cerimônia:
- Chegamos. Não quer ficar um pouco?
- Eu adoraria. Casamentos fazem mais o meu tipo.
- Eu posso imaginar. Obrigada por me trazer, nem sei como te agradecer.
- Não se preocupe, fico feliz em ajudar.
Quando me preparo para sair do carro, Daniel solta:
- Cervejas!
- O que disse?
- É o que eu tomaria pra me divertir.
- Eu vou me lembrar disso. - E saio.
*continua

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