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O Jardineiro - Parte 2: "Boa Sorte!"


Eu precisava atualizar o blog com os últimos acontecimentos. 

A história sobre o Jardineiro (sim, é assim que vamos chamá-lo, afinal, esse é o único relato sobre o qual deixo claro a pessoalidade, que não escondo que se trata de algo vivenciado por mim), para que possam se situar, ocorre com uma pessoa muito próxima a mim. Essa  proximimidade em nada tem a ver com termos intimidade, até porque não temos nenhuma, me refiro à distância mesmo, nós moramos no mesmo bairro. Ok curiosos, isso é tudo que vão saber sobre ele! 

Desde que contei aqui sobre o episódio com as flores, nos vimos algumas poucas vezes em situações um tanto engraçadas. Teve a vez que ele tentou conversar sobre minha cachorrinha, dizendo que ela tinha muita sorte, e quando o questionei pelo quê, ele disse que era pela frequência com que ela saía. E antes que eu pudesse ir embora, continuou dizendo: "E em boa companhia, né?". É isso mesmo, ele falou sobre o fato de um cachorro ter mais sorte que ele. 

Também teve a vez que eu (de novo) estava com minha cachorrinha e faziam uma festinha pra ele, em sua casa, devia ser aniversário dele ou algo do tipo. Eu estava do outro lado da rua, mas pude ouvir claramente alguém me gritar pelo nome. Era ele, bêbado e louco, meus caros, fazendo um escândalo na garagem para que eu o notasse. Foi constrangedor. Pra ele, porque eu fingi demência. 

Depois disso, achei que alguém o tivesse lembrado do que ele fez e isso o tivesse matado de vergonha de falar qualquer coisa comigo, mas, pra minha surpresa, lá estava ele, na lanchonete onde eu consegui um teste. Eu não sabia, mas ele tomava café lá todos os dias. Bom,  pelo menos agora eu sei alguma coisa sobre ele: sei que ele adora uma composição inusitada de pão francês com algum embutido nada saudável e iogurte de morango. Talvez o açougueiro de Animals (leia a parte 1 para entender a referência) tenha o paladar de um garoto de nove anos. Surpreso por me encontrar na lanchonete, disse que estava feliz por mim, e me desejou um sincero "boa sorte". Outra pessoa conseguiu a vaga, que droga de sorte é essa? 

Ah! E eu ainda nem falei da vez que eu estava ajudando uma amiga, buscando o seu bebê na escolinha e, quando ele me viu com aquela criança no carrinho, me perguntou, confuso: "É seu filho? Como pode? Eu sequer te vi grávida?!" Foi muito hilário vê-lo sem entender nada.

Algumas semanas se passaram desde a vez que ele pediu meu número para (calma, vocês vão entender) minha mãe. Ela deu, sem me perguntar, mas por alguma razão, ele anotou errado e ficou durante todo esse tempo tentando esbarrar com ela de novo para confirmar, foi o que ela, só ontem, me contou. Eu soube que ela estava falando sério, porque logo depois eu recebi uma mensagem do próprio, falando sobre o que aconteceu.

Em pouco tempo de conversa, fiquei um tanto assustada com tudo o que ele dizia em um textão que me mandou. Dentre as coisas que estavam escritas, ele disse que queria me conhecer a fundo, que sempre (eu li certo, ele disse SEMPRE) teve segundas intenções em relação a mim, que teve medo porque eu era muito nova e talvez a idade dele pudesse ser um empecilho pra mim, que quer sair comigo, que quer investir em mim e não só como amiga, e mais um tantão de coisas que já nem lembro.

O menino de nove anos parecia atacar novamente. Soou desesperado, como quem pede socorro, foram muitas confissões para uma noite, apenas respondi que não esperava por aquilo e que fui pega desprevenida. Mas cá entre nós? Embora eu não soubesse de todas essas coisas, de alguma forma, sentia que havia algo entre nós. Talvez seja a energia que fica no ar quando estamos perto, ou talvez seja o quão hipnotizada eu fico com aqueles olhos verdes por trás dos óculos, talvez tenha a ver com o fato de eu gostar mesmo de homens mais velhos. Ah! Acreditam que ele perguntou se tenho problemas com isso? Mal sabe ele o quanto isso o favorece. Mas por enquanto isso é um segredo meu.

A menina madura quando o assunto é relacionamento que habita em mim acalmou a criança que existe nele dizendo que poderíamos sim conversar, não disse nada além disso. Até porque precisamos mesmo desta conversa, para entender o que há com a gente. A prova de que isso não era coisa da minha cabeça, foi que ele me procurou. E o que mais me deixou espantada, dentre todas as coisas que ele disse, foi "Eu já esperei tanto tempo, espero mais um pouco se precisar". Vocês não poderiam imaginar o impacto que essa frase teve sobre mim. 

Sei que ele mora por aqui há alguns anos, sei lá, uns sete talvez, então isso significa que durante todos esses anos ele me enxergava com outros olhos, enquanto me via sair com outras pessoas, a tentar engatar relacionamentos e até mesmo beijando garotos enquanto ele voltava de algum lugar. No momento em que ele disse isso, eu só conseguia pensar no quanto isso deve ter sido estranho pra ele. Eu sei, eu sei, parece coisa de filme, né? Algo como alguém gostar de você, te observar, e você nem se dar conta disso e só viver sua vida normalmente. E agora que sei disso, sinto que a energia que há entre nós pode ser explicada pelas intenções que ele sempre teve. De alguma forma muito louca, eu sentia isso, só não sabia o que era. 

Porém, há coisas sobre mim que, dentre muitas, ele não sabe. Como ele reagiria sabendo o que aconteceu comigo e seu irmão? Precisaremos de bem mais que sorte, se quisermos que isso funcione.


(Créditos na imagem: filme "Lady Chatterley's Lover". Netflix, 2022.)





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