Eu fiquei por lá cerca de três dias, além dos dias de férias, e tudo aconteceu nesse período: havia um rapaz dando em cima de mim, descobri que gostava de um amigo que tinha acabado de conhecer e briguei com meu namorado (conto sobre eles em uma outra ocasião).
Fiquei com a chave da casa da minha irmã e fiz se realizar o desejo de muitos adolescentes fãs de seriado americano: dei uma festa. Com direito a filmes que duraram a madrugada toda, refrigerante, queijo derretido, pipoca, biscoitos, e amigos gatos cariocas (incluindo o que eu gostava). Ele me impediu de ir embora naquele dia, parecíamos mesmo um casal vivendo um romance proibido, já que meu ex, com quem havia terminado no dia anterior, passava pela janela da sala o tempo todo e, em uma dessas, nos viu bem próximos um do outro.
Ele morava no mesmo quintal que a minha irmã, tinham uma garagem em comum, então o normal era que não precisassem bater na porta ou entrar para poderem facilmente se ver. Em uma das vezes que passou, o então garoto que eu gostava estava deitado no sofá e apoiou a cabeça no meu colo, me pedindo para alisar seu cabelo e fazê-lo dormir. Éramos próximos o bastante para que isso acontecesse. E um detalhe bobo que deixei escapar é que esse cara, cujo cabelo eu estava ali, alisando, era o melhor amigo do agora então meu ex-namorado. Isso não foi de propósito, eu juro! Muitos até hoje me julgam pelo que aconteceu, mas vocês só precisam ouvir a história inteira para me dar razão. Essa é outra história que merece ser contada e um dia farei isso!
O que eu queria mesmo dizer é que além da festinha que fiz com meus amigos mais velhos na casa da minha irmã, eu também recebi uma visita um tanto quanto inesperada durante esses três dias: o melhor amigo do meu cunhado. Ele gostava de pássaros, tinha uma pequena chácara com alguns animais bem pertinho de onde minha irmã morava, a mãe dele era madrinha do meu cunhado e os dois também tinham um certo tipo de parentesco e intimidade o suficiente para um entrar na casa do outro sem chamar ou se anunciar.
Ele não sabia que eu estava lá sozinha, então entrou na varanda, como de costume e como já o vi algumas vezes fazendo, começou a mexer nas coisas de aves que meu cunhado deixava ali, de fácil acesso pra esse amigo.
Eu dormi sozinha na casa nesse dia. Meus amigos quiseram ficar e passar a noite ali para cuidar de mim, mas eu não queria dar mais um motivo para enfurecer minha irmã. Era bem cedo quando ouvi barulhos vindos lá de fora. Me levantei como estava, infantilmente vestindo minha camisola de gato que ganhei de aniversário, com medo de que pudesse estar sendo roubada, temendo que alguém soubesse da ausência de moradores na casa e quisesse se aproveitar disso, passei a mão em uma vassoura e caminhei lentamente pela porta. Estava disposta a atacar quem quer que fosse.
- Você não ía me acertar com isso, ía? - Me perguntou, assustado.
- Ah, oi, eu não imaginei que fosse você... - Respondi, sem jeito.
- Eu acordei vocês? - Perguntou rindo e tirando a vassoura da minha mão.
- Não tem mais ninguém aqui - respondi. -Precisa de ajuda?
- Onde estão todos?
- Voltaram para minha cidade.
- Você está sozinha? - Nesse momento, vi desespero e desaprovação em suas palavras
- Sim.
- O que? Como assim deixaram você sozinha aqui? - Berrava.
- Ninguém me deixou, eu quis ficar.
- Pegue suas coisas, anda, vamos para casa.
Eu ri daquela situação. Foi irresistível vê-lo assim tão preocupado comigo, posso dizer que foi fofo, até.
- Não precisa se preocupar, eu devo ir embora hoje ou amanhã, ainda não decidi.
- Maya, você não pode ficar aqui sozinha, você só tem...
- Treze anos. - Completei.
- Você já tem treze anos? - Perguntou, perplexo, me olhando de cima abaixo sem acreditar que eu já era uma adolescente, conferindo se eu tinha tamanho suficiente que confirmasse o que eu estava dizendo.
Tínhamos uma brincadeira, quando eu devia ter lá meus nove ou dez, de que ele me esperaria crescer para namorar comigo. As pessoas da geração depois da minha não fazem mais esse tipo de brincadeira, e até mesmo eu, que já achei normal ter nove anos e fletar com um homem de quarenta e poucos, hoje acharia um absurdo sem tamanho. Mas as pessoas da minha época faziam isso sem se preocupar.
- Sim, eu tenho. - Respondi.
Eu imagino que no momento em que confirmei a idade, ele possa ter lembrado da brincadeira e talvez por algum momento a ideia de colocá-la em ação tenha passado pela sua mente. Eu, de alguma forma, senti isso.
- Quer saber, não importa. Troque essa roupa e vamos para minha casa.
Ao ver que eu não me movi do lugar, esbravejou:
- AGORA!
- Eu não vou com você! - Enfrentei.
- Eu não vou deixar você ficar sozinha aqui. Nem cozinhar você sabe, o que você está comendo? Biscoitos? Salgadinhos?
- Minha irmã deixou comida pronta na geladeira, eu só preciso aquecer e comer, é simples. Agora já pode parar de agir como meu pai. Tenho tudo aqui.
- Eu não acredito em você, me deixa olhar. - E entrou para conferir.
- Viu só? Eu tô sabendo me virar. - Disse a ele, orgulhosa.
- Quem esteve aqui com você?
Ah não, droga! Eu esqueci de lavar os copos!
- Ninguém. Só a minha amiga que veio me fazer companhia.
Eu odiava o fato de mentir para ele, mas era isso ou ele contar para minha irmã sobre o que eu fiz com a casa dela. Ela nunca mais confiaria em mim.
Ele segurou nos meus braços, me olhou fundo nos olhos e me indagou:
- Por que tenho a leve impressão de que está mentindo pra mim?
- Porque não confia em mim. - Respondi, me soltando.
- Você é adolescente. Adolescentes mentem o tempo todo.
- Está me colocando em um pacote muito grande. Não pode generalizar. - Me defendi.
- Espera. - Ele analisa o quarto e vê minha cama ainda bagunçada. - Seu namorado dormiu aqui?
- Não tenho mais namorado.
- O que houve? - Pergunta, surpreso.
- Ele achou que eu o tivesse traído.
- E você o traiu?
- Claro que não. Ele não acredita em mim e fez algo que considero muito grave.
- O que ele fez?
- Não seja curioso! - Me esquivei.
- Ele machucou você? - Perguntou, enquanto me virava para todos os lados, examinando meu corpo para ver se achava alguma marca.
Sentir aqueles toques e seus olhares sobre mim era muito estranho. Já não sabia até que ponto ele se preocupava, ou estava só sendo chato. Ou, o que seria pior, me olhando com outros olhos.
- Não, ele não me machucou. Não seja ridículo!
- O que de tão grave ele poderia te fazer?
- Eu já resolvi isso. - Disse, dando fim ao assunto.
Ele me abraçou, terno, me fez sentir acolhida e querida por alguém.
- Me importo com você.
- Sei disso.
- Ainda estou te esperando. - Quando ele disse essas palavras, eu só conseguia ver referência sobre a tal brincadeira que fazíamos há um tempo atrás, mas achei que fazia mais sentido ele estar me esperando para ir para sua casa. Quando ele continou, tive a confirmação do que estava pensando. - E agora que está solteira, podíamos conversar sobre isso.
Nesse ponto da conversa, eu já não sabia se deveria levá-lo a sério ou não.
- Do que está falando? - Me fiz de desentendida.
- Estou falando do que me prometeu.
- Nunca te fiz uma promessa.
- Sim, você fez. Prometeu que seria minha namorada.
- Você me fez dizer aquilo, não foi uma promessa, e eu tinha nove anos. Como é possível que ainda se lembre disso?
- É que olhando agora para você, só consigo pensar no esforço que estou tendo que fazer pra não te beijar.
- Eu ainda sou menor de idade! Não devia estar falando essas coisas para mim.
- Você é bem crescidinha. Prova disso que é estava namorando até ontem. Você pode até não me contar, mas sei que deve ter rolado algo mais quente entre vocês.
- O que está insinuando?
- Vocês estão com a casa só para vocês. Quer que eu acredite que só se beijam aqui?
- Você não sabe o que está dizendo e está me ofendendo!
- Maya, você é menor de idade, mas ele não. Todos os homens com a idade dele só pensam em uma coisa e você sabe bem o que é.
- Não aconteceu nada! E por que eu estou tentando te convencer? Nunca vai acreditar mesmo.
Se redimindo, ele disse:
- Só quero que tenha cuidado. Já disse que me importo.
- Não tem com o que se preocupar, já que agora nós terminamos.
- E se ele quiser voltar?
- Neste exato momento, ele deve estar morrendo de raiva de mim, acho impossível que a gente consiga conversar agora.
- Você gosta dele, não é?
- Sim, eu gosto. Mas o modo como as coisas aconteceram entre a gente me faz ter dúvidas se devo insistir nisso.
- Por que não me conta tudo?
- Porque isso não é problema seu? - Respondi, sarcástica.
- Você é má! Uma menina muito má! - Disse, enquanto me segurava para me cobrir de cócegas.
- E você é um intrometido! - Brinquei.
- É melhor você se trocar. Falei sério sobre te levar para minha casa.
- Por que tenho que fazer isso? Já teve provas de que posso me cuidar!
- A única coisa que eu estou vendo é uma menina de treze anos, sozinha, com uma casa cheia de copos sujos e com o cabelo bagunçado.
- Meu cabelo não está bagunçado - retruco.
- Agora está! - Disse, passando a mão sobre meu cabelo e o despenteando.
- Tá, você venceu. Me dê dez minutos para limpar isso e eu já vou.
- Vou ajudar você - E me deu um beijo na testa.
(Continua)

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