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Relato: "Eu não sou sua filha" - Parte 3 - 'Pedro. Doutor Pedro.'


Lá estava eu, na sala de espera, para o meu primeiro dia. Logo avistei Samanta, secretária da Ferrara Advogados. Já nos conhecíamos, afinal, Caio e eu já fomos inúmeras vezes à empresa para pedir orientações de cunho criminal ao Pedro e também aos rapazes dali.

A sala de Pedro ficava no terceiro andar do prédio; na cobertura ficava a de seu pai, e nos dois andares inferiores, as de seus dois irmãos mais novos. Ambos, profissionais excelentes em suas funções. Sempre notei que haviam muitos diplomas na sala de Pedro, de especializações em Psicologia à pós-doutorado em Criminologia. Ele sempre contou sobre sua fascinação pela mente criminosa e dedicou parte da vida estudando e tentando decrifá-la.

Caio e ele não estavam errados quando disseram que eu estaria em um lugar melhor. Profissionalmente falando, Pedro tem mesmo muito a ensinar. Não à toa, tem milhares de livros vendidos, muitos comprados por estudantes de Direito, como eu, apaixonados pelo que ele tem a dizer. 

Porém, o fato de eu querer muito aprender com o Pedro não mudava as circunstâncias. Eu estava chateada, e não só. Sentia que meu poder de escolha havia sido duplamente usurpado por pessoas em quem confiava. 

Fiquei esperando Samanta me anunciar ao Pedro e, para minha surpresa, ele foi ao meu encontro me buscar:

- Bom dia, Maya! - Disse ele, sorrindo.

Pedro era um homem irritavelmente elegante, suas roupas estavam sempre muito bem passadas e seus sapatos sem nenhum arranhãozinho sequer. E naquela ocasião não podia ser diferente. Usava um bonito terno escuro que, a propósito, lhe vestia muito bem, uma camisa branca por baixo do paletó cujo tecido era tão bem estruturado que parecia ter sido feita à mão por costureiros egípcios. Não havia um cinto caro dessa vez, mas tudo estava perfeito. Sapatos pretos, como costumeiramente usava e um relógio que me arrisco dizer que devia custar o meu salário de estagiária (o equivalente à seis anos).

- Bom dia! - Respondi friamente. Queria que ele notasse, pela minha fala, que ainda estava decepcionada com ele.

- Venha comigo, por favor - assim, com um início de sorriso que quase não se notava, me levou ao elevador.

Enquanto Pedro tomava a frente para apertar o número equivalente ao andar três, notei que ele era muito forte. Não forte, como aqueles caras que participam de competições, apenas forte. Caio me contou que Pedro queria ser delegado de polícia, mas seu pai sempre insistiu para que ele ficasse na empresa, isso porque ele muito em breve se aposentaria e então Pedro cuidaria de tudo por ali, já que era o mais velho dos irmãos.

No período em que Pedro se dedicou às provas, fazia ainda mais atividades físicas, hoje, o que ele mais gosta é de lutar. Eu sequer sei o que ele luta, mas sei que gosta muito e está sempre participando de pequenos torneios. Caio e eu já o vimos lutar algumas vezes e a sensação que tive foi a de que os outros rapazes sentiam um pouco de medo dele, talvez sua altura e expressão carrancuda colaborassem para isso. Pedro é o tipo de pessoa que causa sensações sem nem mesmo um toque, sua presença é imponente, dá para sentir medo no ar, é difícil explicar.

Eu estava desconfortável naquele pequeno espaço com ele. Não conversamos uma palavra sequer enquanto no elevador, e aquele silêncio era perturbador. Eu achei que já estivesse ficando íntima de Pedro, poxa, eu instalei o Instagram para ele. Quem faz isso senão um amigo? Mas dividir o mesmo ar que ele naqueles poucos metros quadrados me fazia sentir que eu não o conhecia.

- Pode me acompanhar - orientou, saindo do elevador.

Pedro abriu a porta e gentilmente me apontou para a sala. Ao entrarmos, notei que, dentre todas que já conheci da empresa, aquela não me era familiar. Havia uma mesa, larga o suficiente para comportar quantos processos fossem, uma cadeira, cinza e acolchoada, parecia confortável, tudo em tons bem fechados. Também havia um pequeno sofá, da cor da cadeira, e nem imaginava o porquê. Eu não possuía competência suficiente para receber ou orientar alguém sobre alguma coisa, nem mesmo deixar alguém esperando para ser atendido por mim naquele sofá.

Como quem podia ler meus pensamentos, Pedro soltou:

- Não, você não conhece essa sala.

Como ele imaginou que era justamente isso que eu estava pensando? Ah, claro, a minha cara de deslumbrada provavelmente me entregou.

- Foi o que pensei - respondi.

- Mandei que reformassem ela para você.

- Espera, você disse "reformar"?

Todo mundo sabe e eu também sabia que eram necessárias mais que uma semana para uma boa reforma, seja ela qual for. Mas se só vim para cá nesta semana, como ele haveria conseguido fazer isso a tempo? 

- Sim, foi o que eu disse.

- Como isso é possível? Eu saí ontem do escritório do Caio! - Pergunto, indignada por descobrir naquela hora que ele estava finalmente revelando o que aconteceu. Obviamente, Caio e ele planejavam me levar para lá muito antes que eu tomasse ciência dos fatos. Que cara de pau!

- Já disse que sempre quis você aqui comigo, Maya. Eu sabia que um dia você viria - diz, se gabando por ter conseguido o que queria.

Me pergunto como alguém pode ser tão seguro de si a ponto de não duvidar que tudo que planejou vai acontecer exatamente como queria. Ele reformou uma sala toda para mim! Que garantia ele tinha de eu aceitar? 

- Você é uma pessoa muito convicta - provoco.

- Sim, é verdade.

Eu fiquei por alguns minutos ainda tentando digerir tudo aquilo. Em um dia, estava confortável em um escritório pequeno, mas com um ótimo e tradicional advogado, e a coisa mais emocionante que fazíamos era ir às audiências de divórcio. Era divertido ver que as mulheres, em sua grande maioria, iam absurdamente arrumadas para o que consideravam o grande dia. Eu nunca soube se elas estavam mais preocupadas em mostrar que deram a volta por cima e estavam bem sem os maridos ou se queriam reconquistá-los, fazendo-os se arrepender de estarem perdendo uma mulher tão poderosa como elas. Já vi casos onde eles acabaram desistindo do litígio e voltaram a ser um casal, só o doutor Caio que não gostava nadinha de ter que voltar atrás de toda a argumentação que preparávamos para falar sobre os bens. Mas no fim, todos torcíamos para que fossem felizes.

Lá, com o Pedro, a coisa já começava diferente, até o clima era mais tenso. Eles lidavam com assuntos bem mais graves. Soube, certa vez, de um caso que Pedro lidou que envolvia menores e o padrasto de duas meninas as agrediam desde muito pequenas. Foi um caso que mexeu muito com ele, a ponto de ele ir desabafar com o Caio. 

Quando pensamos que alguém lida com direito penal, associamos isso ao fato de que o profissional vai sempre trabalhar do lado do autor dos fatos. No caso do Pedro, ele quase sempre trabalha em favor das vítimas, mas também era frio o bastante para lidar com o outro lado. Ele considera importante conhecer os dois lados, desde que isso não envolva crianças, porque, segundo ele, qualquer pessoa que faz mal a uma criança, não merece perdão. Eu tenho tanto amor por crianças que me obrigo a concordar com ele. 

- Sente-se - disse, apontando para a cadeira cinza. - Quero que se sinta à vontade - mas logo começou a ditar as regras que não me deixavam nada à vontade. - Essa é a sua sala, somente você ou eu podemos entrar aqui. Aqui dentro tem um banheiro, com chuveiro e ferro de passar roupas, caso precise. A senha do seu computador é a sua data de nascimento. Qualquer coisa que esteja faltando no frigobar, é só ligar para a Samanta e ela traz. Eu venho mais tarde para almoçarmos, trago os papeis que precisa assinar e te coloco à par dos processos que estou cuidando. Tudo bem? 

- Sim, Pedro.

Pedro cemicerra os olhos, caminha até atrás da minha cadeira, se curva e sussurra no meu ouvido:

- Sim, senhor. É assim que deve falar. 

Aquele vento da sua voz no meu ouvido me causou uma sensação muito estranha, senti todo o meu corpo reagir a esse estímulo. Eu nem me atentei ao fato de que ele estava sendo gentilmente grosseiro ao dizer que não poderia mais tratá-lo como antes. O que estava acontecendo comigo? Eu ainda estava brava com ele!

- Claro, como o senhor quiser.

Falando ainda mais perto, jogou algo na mesa:

- Esse é o controle do ar, pode diminuir se estiver quente para você. 

Quente? Ele estava mesmo falando da temperatura? Eu estava tremendo por inteira, com medo de agora trabalhar para ele, não conseguia entender se havia qualquer outro sentido em suas palavras, mas parecia que ele brincava com a situação. Ele causava pânico e depois era como se ele próprio acalmasse as coisas. Por que Pedro era tão difícil de decifrar? 


*Continua...


(Créditos da imagem: série "Suits", 2011.)

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