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Relato: "Eu não sou sua filha" - Parte 2


- Esquece o Caio. Você não trabalha mais para ele!

- O que disse? - Perguntei, confusa.

.

.

.

*continuação

- Disse que não trabalha mais para o Caio.

- Eu sabia que isso ia acontecer! Aposto que foi por aquele telefonema, eu imaginei que ele fosse procurar o Caio para falar sobre a péssima estagiária que desliga o telefone no meio de uma conversa sobre seu filho. "Nunca dispensar um cliente se ele tiver dúvidas!", é o que o Caio sempre diz...

- Será que você pode se acalmar? - disse Pedro segurando meus ombros.

- O filho dele está preso! 

- Eu entendo.

- Quer saber? Tudo isso é culpa sua!

- Maya, me escuta por um minuto! Isso não tem nada a ver com aquele telefonema, eu cheguei no escritório com uma notícia e você ainda estava ao telefone.

- É verdade - reconheço, constrangida. - Nesse caso, eu não entendo porque ele me dispensaria. Não acho que eu tenha sido uma funcionária ruim.

- Não, você não foi - sorri.

- Por que está sorrindo?

- Você estava certa, a culpa é toda minha - assume, mas sem demonstrar qualquer reação que esboce remorso. - Eu fiz o Caio te dispensar.

- Espera! - gaguejo. - Por que você faria isso? 

- Você sempre disse que adorava o que eu faço e que sonha em trabalhar na minha área quando se formar. Eu só adiantei as coisas para você! - diz, animado. - Tem ideia do que podemos fazer juntos? Eu já te vi trabalhando com o Caio e sei que é incrível no que faz. Eu sempre quis você comigo e agora estamos realizando isso. E tem mais! Eu quero que faça parte do nosso escritório quando pegar sua autorização, e seu salário também será melhor, eu prometo!

- Deixa eu ver se entendi... Você pediu para o doutor Caio me dispensar do escritório para que eu fosse trabalhar com você? 

- Sim, não está feliz?

- Vocês decidiram isso sem me perguntar? Como podem ter feito isso? E por que o doutor Caio não está aqui? 

- Isso também é minha culpa, queria eu mesmo dar a notícia - desabafa, em tom desanimador.

- Não podem tomar decisões por mim dessa forma!

- Eu só fiz o que é melhor para você, Maya. Ainda vai me agradecer por isso. 

- Eu tenho que ir.

Neste momento, me levanto para ir embora, mas sou impedida por Pedro:

- Aonde está indo? - pergunta, me segurando pelo braço. 

- Vou procurar o Caio, quero ouvir o que ele tem a dizer.

- Eu vou com você! - propõe, se ajeitando para me acompanhar.

- Não! - me solto dele. - Preciso fazer isso sozinha! - e dou de costas. - Ah! Não se preocupe, estarei no seu escritório amanhã, doutor Pedro! 

Faço questão de enfatizar o "doutor", para que ele perceba que estou chateada demais para tratá-lo como antes. 

Procuro por Caio no escritório. Sequer espero me anunciarem, quando abro a porta, com rispidez:

- Por que fez isso? - o questiono, entrando em sua sala.

- Pelo visto, Pedro já conversou com você...

- Sim, e me preocupa o senhor não ter participado disso.

- Sente-se, por favor - ele se levanta e fecha a porta. Logo torna a assentar-se em sua cadeira de couro ultra macia. - Eu sugeri ao Pedro que eu fosse o primeiro a te comunicar da nossa decisão, mas ele insistiu muito para ter essa conversa à sós com você.

- Doutor Caio, sempre fomos sinceros um com o outro. Se não estava gostando dos meus serviços, era só me falar e eu entenderia e melhoraria eu...

Sou interrompida.

- Maya, você é maravilhosa em tudo o que faz, e eu ficaria com você se você desse conta de trabalhar em dois lugares. Você tem um potencial enorme na área que escolheu e vai poder praticar isso com o Pedro.

- Mas eu também aprendo muito aqui.

Nesse instante, Caio se levanta, pegua em minha mão direita e, beijando-a, diz:

- Eu só pensei em você e fiz o que era melhor. Você ainda vai entender isso.

É isso mesmo que estou ouvindo. Ou se trata de uma enorme coincidência ou Pedro e ele ensaiaram o mesmo discurso.

Essas foram as últimas palavras de Caio, antes de me levar em casa:

- Você vai ficar bem?

- É claro que vou - serenamente respondi.

*Continua...


(Créditos na imagem: série "Suits", 2011.)

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