Isso me remeteu a uma situação pela qual passei há alguns anos...
Eu estava com uma pessoa, falávamos sobre relacionamento, sobre que nome dar ao que tínhamos e se seria a hora de dar o próximo passo.
Ele havia me feito um convite para irmos a um lugar muito especial e me cobrou uma resposta, depois de haver passado uma semana desde a vez que ele me mandou algumas fotos do local. Era, de fato, muito lindo, perfeito para um casal apaixonado, o que hoje consigo dizer com certeza que não era o nosso caso. Havia um campo lindo de lavanda, uma casa inteira de vidro com móveis de madeira rústica. Um convite para um banho de banheira olhando para as montanhas frias da estação.
Eu sei, vocês estão curiosos sobre o o que eu decidi a respeito...
Eu disse que não. Não queria passar o final de semana sozinha com ele em qualquer lugar que fosse que não me desse a chance de voltar para casa antes ou próximo da meia-noite. Não iria dormir com ele, não iria estar ali no outro dia para o café da manhã e não queria fazer nada parecido com quem eu sequer namorava.
Ele, prontamente, soltou que resolveríamos aquilo naquele exato momento. Ali, em frente à nossa lanchonete preferida, ele tirou o cinto, se ajoelhou no carro e segurando minha mão direita, disse:
- Maya, aceita ser minha namorada?
Eu respirei fundo e respondi:
- Não quero que faça isso. Você não precisa disso para que eu durma com você, porque não irei fazer isso nem mesmo que seja meu namorado. E não quero que seja assim, desse jeito, sem nem mesmo saber se é isso que quer.
- Eu quero, quero muito. Você é que está fugindo de ter um compromisso comigo, e eu não entendo o motivo.
- Eu não quero que esse pedido seja porque quer que eu vá para esse lugar com você.
- Você não confia em mim? - Me questionou.
- Não se trata de confiança, eu só acho que estar nesse lugar com você significa que estamos elevando o nível do que temos, e não sei se ainda é o momento. Não me parece correto que nós, que estamos tentando pela terceira vez, comecemos errado de novo. Você se lembra do que aconteceu naquela vez...
Eu estava me referindo à vez que ele também me questionou sobre confiar nele e fez o que parecia uma armadilha muito bem preparada pra mim.
- Não vamos voltar nesse assunto, por favor! Achei que já tivéssemos superado isso. - Ele disse.
- E superamos. É por isso que não quero e não vou deixar que você me proponha isso de novo. Sabe... Não é nenhum segredo pra você que eu gosto de pessoas mais experientes - eu queria dizer "mais velhas", mas senti que poderia ofendê-lo - e escolho me relacionar com essas pessoas justamente porque sinto mais confiança nelas. Eu não sei explicar porque isso acontece, mas é o que acontece comigo.
Ele virou-se para mim, indignado com o que eu disse, e retrucou:
- Eu não sou um número! Eu sou uma pessoa, um homem, que gosta de você e quer estar com você e me casar com você.
- Eu estou falando sobre gostos pessoais, não se ofenda...
- Isso não existe! Você não pode se envolver com alguém só por esse motivo, precisa dar muito mais de si.
Por fim, eu não aceitei seu convite para ir àquele lugar com ele, e muito menos seu pedido de namoro. Ele concordou em ser mais paciente comigo, e esperar até que eu estivesse de fato pronta para tudo o que estar com ele me conferia.
As coisas ficaram um tanto conturbadas entre nós por um tempo, e semanas depois, eu rompi de vez. Fui dura com ele, que tentou se aproximar algumas vezes, mas, da minha parte, não havia mais como continuar.
Hoje, passados anos desde aquela conversa, resolvi analisar o que disse. Será que a confiança é, de fato, o que me faz relacionar com pessoas mais velhas? Porque se for isso, se for esse o critério mais importante para que eu adentre em uma relação, então, consequentemente, esse não seria um romance que eu viveria. O que contei revela, entre outras coisas, que eu não confiava totalmente nele, nossas idas e vindas, somadas às tentativas frustradas de ficar junto provam isso.
Será então um gosto pessoal, como defendi ser? Será que há nos homens de mais idade a aparência que considero ideal?
Uma amiga uma vez me disse que isso podia estar relacionado à ausência de paternidade. "De paternidade, não de pai", ela frisou. Estaria eu, então, buscando nos relacionamentos, alguém que se comportasse como um pai?
Foram muitas as dúvidas, até que eu encontrei algo, algo só meu, que foge do senso comum de encontrar confiança, conforto e uma vida de mais sossego. O que a maioria das mulheres que gostam do mesmo que eu diria.
Cresci com o sentimento de que não pertencia à época em que vivo. Existe um filme, agora não me recordo o nome, onde uma menina diz que tudo sobre sua geração tende a ser idiota e do como isso a faz querer ainda mais se conectar com coisas do passado. Eu me identifico com essa personagem, principalmente porque ela diz que ama coisas velhas: música, objetos (e pessoas).
Não é uma regra, mas sair com um homem mais velho pode significar que alguém irá abrir a porta do carro para você, vai te apresentar todas as canções cujos CD's ele ainda guarda no armário porque custaram caro para completar a coleção. Ele certamente vai falar sobre a história por trás de cada música que tocar no aparelho porque elas falam de sua adolescência rebelde e da banda que ele formou com os amigos.
Se relacionar com um homem mais velho pode significar que se ele te magoar, ele provavelmente vai enviar flores para sua casa no dia seguinte, porque sabe que flores vão te fazer sorrir ao lembrar do quão bobo ele se esforça em ser para te conquistar.
Namorar esse tipo de homem pode implicar em comer em restaurantes tradicionais porque se você disser que gosta de maionese defumada, ele vai dizer que não faz bem ao estômago dele, é verdade. Mas quem se importa?
Tudo bem se tivermos que trocar o show da madrugada por uma noite de filmes. E ele com toda certeza imploraria para demonstrar seus talentos na cozinha, a fim de impressionar.
Concluí que me relacionar com um homem mais velho diz muito sobre onde me encontro no mundo. Eu me vejo em uma época que não é minha e encontro isso com as pessoas que viveram o que eu gostaria. É como ganhar uma entrevista com o próprio Elvis Presley, como pilotar uma lambreta e dançar rock com saia rodada. É como sentar à mesa com o Capitão América usando seu uniforme de soldado, como ligar uma sonata e participar de festas com biscoitos arredondados, como tomar milk shake em copos apropriados. É como viver a vida sem celulares, vivenciar a conquista genuína e gostar dela.
Eu não encontro isso nos rapazes da minha idade. E isso talvez se deva ao fato de que ninguém pode oferecer o que não tem. Quem não aprendeu o que eu gosto, não pode me dar o que eu quero.
(Créditos na imagem: divulgação novela "Império". TV Globo, 2014.)
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