Eu trabalhava em outro lugar quando conheci Pedro. Na verdade, na verdade, não o conheci, assim, por dizer, mas foi quando nos vimos pela primeira vez. Ele ia sempre ao meu local de trabalho, era amigo íntimo do meu chefe e, dia sim, dia não, me pedia alguns favores com tecnologia. Pedro nem era tão velho assim, só não gostava mesmo de celular e redes sociais. A prova disso foi ele só ter instalado o instagram no celular (na verdade, eu instalei) porque ele dizia não acreditar que um dia eu fui morena e queria que eu lhe provasse de todo jeito. Daí disse a ele que minhas fotos no aplicativo lhe confirmariam minhas palavras.
A nossa conversa quase que diária já estava nesse ritmo. Era impossível não criar intimidade com quem se vê vinte e seis vezes por mês. Digo vinte e seis porque também não era difícil encontrá-lo nos jantares que ía com meu chefe. A impressão que eu tinha era a de que ele estava em todos os lugares, nas lanchonetes, nas lojas de sapatos e até mesmo nas delegacias, onde eu ia algumas vezes porque minha amiga trabalhava em uma delas. Inclusive nas festas que eu ía, mesmo sem sequer termos tido nenhum amigo em comum à época, com exceção do meu chefe.
Numa quarta pela manhã, Pedro chegou ao meu trabalho e estava mais sorridente do que quando ganhou uma caixa de som super moderna no amigo invisível que fizemos na casa do Caio. Foi até a minha mesa e, tirando das minhas mãos o telefone que eu segurava enquanto fornecia uma informação muito importante a um cliente, o colocou no gancho e sussurrou:
- Tenho uma ótima notícia!
Eu logo respondi que aquela ligação era importante e o Caio poderia brigar comigo por conta disso.
Sorridente, ele disparou:
- Venha almoçar comigo hoje e vai saber! - E saiu, virando as costas.
- Por que tanto suspense? Por que não diz logo? - Gritei.
- No horário de sempre! - Disse ele, encerrando a conversa.
O horário de sempre era o horário que Caio e eu costumávamos encontrá-lo no restaurante que gostávamos de comer às quintas. Mas hoje ainda era quarta, queria ele falar comigo à sós? O que haveria de tão secreto que seu melhor amigo não poderia saber?
Chegando no restaurante, avistei Pedro acenando e indicando onde estava sentado. Me sentei e notei que ele não parava de sorrir. Era quase que assustador ver alguém sorrir tanto.
Pedro tinha quarenta e seis anos, as marcas de expressão ficavam bem evidentes nos olhos quando sorria, mas confesso, eu o achava muito bonito. Sabia de sua idade porque Caio nunca sabia o que escrever ou comprar para o amigo no aniversário e me pediu ajuda algumas vezes.
Enquanto eu estava focada em tentar decifrar suas expressões, Pedro fazia os pedidos. Ele sabia que eu adorava a salada 12, com cogumelos no azeite, e também sabia que eu pediria isso sem pensar duas vezes.
Ansiosa, soltei:
- Quando vai me contar?
- Quando estiver alimentada. - Sorriu.
- Você desligou o telefone na cara do melhor cliente do Caio. Eu ainda estou tentando ligar para ele. - Soltei, mudando o rumo da conversa.
- Não tem mais que se preocupar com isso.
- Como não? Tem ideia do prejuízo que seria perder esse cliente? O Caio nunca me perdoaria.
- Esquece o Caio, você não trabalha mais para ele!
- O que disse? - Perguntei, confusa.
*Continua...
(Créditos na imagem: série "Suits", 2011.)
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